Livro: “Convergences, Divergences and Affinities”

“Convergences, Divergences and Affinities:
The Second Wave of Free Improvisation in England 1973–1979”

Trevor Barre
(Compass Publishing, 2017)

Com o livro Beyond Jazz – Plink, Plonk & Scratch o inglês Trevor Barre fez a cartografia da génese da improvisação livre em Inglaterra, focando-se num período temporal entre os anos de 1966 e 1972. Neste novo livro Convergences, Divergences and Affinities o autor continua o trabalho e analisa a chamada “segunda vaga” da improvisação entre 1973 e 1979 (novamente um período de sete anos). Se no primeiro volume era analisado o nascimento da música livre (identificando os primeiros momentos, os primeiros concertos, as primeiras salas) até ao processo de afirmação de nomes que ficaram para a história – como Evan Parker e Derek Bailey -, neste seu segundo livro Barre faz a continuação da história, focado na evolução da música durante a década de 1970. Não se tratando de um trabalho puramente académico ou científico, esta recolha resulta de um trabalho de um assumido fã de música improvisada que apresenta um delicado equilíbrio entre a lógica cronológica e as múltiplas conexões entre músicos. Os dois primeiros capítulos são dedicados aos músicos pioneiros e ao trabalho que desenvolveram neste período. Além dos inevitáveis Parker e Bailey, são aqui analisados os percursos e pontos altos das discografias de AMM, Spontaneous Music Ensemble, Paul Rutherford, Howard Riley e Barry Guy. Note-se que foi nesta altura que Evan Parker iniciou o seu percurso a solo, com monumentos como Monoceros; também Derek Bailey começou a gravar sozinho nesta época, editando obras marcantes como Lot 74.

Há naturalmente um destaque para os músicos que se afirmaram durante esta época, que o autor chama de músicos da segunda geração (“Gen Two”). São particularmente destacados os chamados “supergrupos”, nomeadamente: Alterations, The Three/Four Pullovers, The Promenaders, Melody Four e The Recedents. Marco fundamental deste período foram as sessões “Company” promovidas por Bailey. Nestes concertos reuniam-se músicos em encontros ad-hoc, o que levava à interação entre músicos distintos, o que resultou no estabelecimento de novas parcerias e fortalecimento e evolução da própria cena musical – destaque para a participação do saxofonista americano Anthony Braxton e para o duo que fez com o próprio Bailey. O autor decide ainda focar três músicos peculiares num capítulo que designa de “Three Mavericks”. Os músicos Lol Coxhil, Steve Beresford e Terry Day têm direito a referências à parte, pela particularidade de cada um dos seus universos sonoros e pessoais.

Não poderia faltar um capítulo sobre as editoras que registaram a música desta época. Além da óbvia Incus (de Parker, Bailey e Tony Oxley), Barre realça o trabalho desenvolvido pelas editoras Emanem, Matchless e Ogun – entre estas editoras poderemos encontrar quase todos os discos “clássicos” free-improv desta época. E são ainda incluídas outras que, apesar de mais pequenas, deram também um contributo relevante, como Nato, Vinyl ou A Records, entre outras. O autor opta ainda por dar um destaque à revista “Musics”, uma publicação bimestral exclusivamente dedicada à improvisação livre que existiu 1975 e 1979. Apesar da curta existência, a revista teve o condão de congregar músicos e fãs, promover o debate e contribuir para impulsionar a cena musical.

O título desta obra é por si só revelador. A expressão Convergences, Divergences and Affinities sublinha as ligações, parcerias e conflitos entre músicos, que definiram, condicionaram e caracterizaram a evolução da música improvisada inglesa ao longo destes anos. Com aprumo histórico mas sem nunca despir a condição de amante da música livre, Trevor Barre reúne e traz à luz muita informação que complementa a audição de discos, criando uma obra fundamental para todos os interessados na história da improvisação.

Texto publicado originalmente no site Bodyspace.net.