Livro: “As Serious As Your Life” de Val Wilmer

O livro “As Serious As Your Life” de Val Wilmer acaba de ser reeditado. Aqui fica um texto sobre o livro, publicado originalmente na revista Mondo Bizarre em Abril de 2005.

Val Wilmer
“As Serious As Your Life”
(Serpent’s Tail)

Dedicated to Ed Blackwell, Dollar Brand, Don Cherry and the late Jimmy Garrison, for a memorable night at Ornette’s when the music healed my New York blues. Esta é a dedicatória que introduz o leitor à aventura. E o leitor desatento que se previna pois, se não tiver cuidado, ao fim da leitura pode ter algumas dezenas de discos novos a forrar a casa, de artistas com nomes estranhos como Leroy Jenkins, Kalaparusha, Grachan Moncur III ou Sirone. “As Serious As Your Life” é um retrato completo da cena do free jazz, em Nova Iorque nas décadas de 1960 e 1970, que vai para além da música e dos músicos, fala das pessoas, das suas circunstâncias e das suas relações. Val Wilmer conta a grande odisseia do “free”, mas fá-lo com a marca de quem esteve lá, de quem conviveu de perto com as pessoas, de quem ouviu os músicos a tocar a partir da primeira fila. Ao longo de pouco mais de 250 páginas é apresentada uma biografia deste movimento musical, frequentemente designado de “New Black Music” – há ênfase na defesa orgulhosa da cultura negra. O especial (e óbvio) destaque vai para os pilares artísticos fundadores da revolução do jazz: John Coltrane, Cecil Taylor, Ornette Coleman, Sun Ra, Albert Ayler. E alonga-se noutros nomes basilares, mas aqui os bateristas ganham atenção especial em relação aos demais: Sunny Murray, Milford Graves, Andrew Cyrille, Rashied Ali são figuras presentes em múltiplos momentos. Repartida por dezasseis capítulos, esta obra analisa pormenorizadamente os elementos fundamentais desta música de criatividade efervescente: personagens, eventos, organizações e factores condicionantes à criação da arte (o mais citado e recorrente será a dificuldade de fazer da criação artística o modo de vida). A edição deste livro foi um passo marcante para a credibilização de um estilo musical que ao longo da sua história sempre foi desvalorizado, quando não foi mesmo ridicularizado. Mas, como sintetizou McCoy Tyner, o pianista do célebre quarteto de John Coltrane: “music is not a plaything – it’s as serious as your life”. Este livro, tal como a música, é para ser levado muito a sério.

Livro “As Serious As Your Life” reeditado

O livro “As Serious As Your Life: Black Music and The Free Jazz Revolution, 1957–1977”, da autoria de Val Wilmer, acaba de ser reeditado pela Serpent’s Tail.  O livro é já um clássico obrigatório para os fãs de jazz, com a fotógrafa e escritora Valerie Wilmer a documentar a cena free jazz através dos percursos musicais e pessoais de músicos como John Coltrane, Albert Ayler, Ornette Coleman e Sun Ra. Assinalado esta nova edição da “bíblia” do free, a revista Wire acaba de publicar um excerto do livro, que pode ser consultado aqui.

As imagens de Sei Miguel

O trompetista e compositor Sei Miguel acaba de publicar o “Livro das Imagens”, numa edição d’O Homem do Saco em colaboração com a Marmita de Gigante. O livro reúne um conjunto de 72 ilustrações originais da autoria de Sei, desenvolvidas entre 2012 e 2015. O livro inclui também dois comentários poéticos de Gastão Cruz: “Divagação” e “A Beleza dos Seres”.  Tal como a sua música, também o traço de Sei Miguel é único: convoca um universo pessoal, é enigmático, convoca referências múltiplas, aproxima-se até de um certo surrealismo. Tal como acontece também com a sua música, Sei convoca-nos para a sua beleza particular, desafia e nunca resolve de forma óbvia.

Ver é torcer a beleza dos seres
por estarem talvez demasiado
iluminados e vivos
Gastão Cruz (excerto)

Sei Miguel lança “Livro das Imagens”


[Sei Miguel]

O trompetista e compositor Sei Miguel vai apresentar um novo trabalho, desta vez um livro. O “Livro das Imagens” reúne um conjunto de ilustrações da autoria de Sei, numa edição d’O Homem do Saco em colaboração com a Marmita Gigante. O livro inclui ainda dois comentários poéticos de Gastão Cruz e foi impresso na Europress, numa tiragem de 400 exemplares. O evento de lançamento terá lugar no dia 17 de Dezembro, domingo, às 18h00 na Galeria ZDB, em Lisboa.

Livro: “Convergences, Divergences and Affinities”

“Convergences, Divergences and Affinities:
The Second Wave of Free Improvisation in England 1973–1979”

Trevor Barre
(Compass Publishing, 2017)

Com o livro Beyond Jazz – Plink, Plonk & Scratch o inglês Trevor Barre fez a cartografia da génese da improvisação livre em Inglaterra, focando-se num período temporal entre os anos de 1966 e 1972. Neste novo livro Convergences, Divergences and Affinities o autor continua o trabalho e analisa a chamada “segunda vaga” da improvisação entre 1973 e 1979 (novamente um período de sete anos). Se no primeiro volume era analisado o nascimento da música livre (identificando os primeiros momentos, os primeiros concertos, as primeiras salas) até ao processo de afirmação de nomes que ficaram para a história – como Evan Parker e Derek Bailey -, neste seu segundo livro Barre faz a continuação da história, focado na evolução da música durante a década de 1970.  Continue reading “Livro: “Convergences, Divergences and Affinities””

Travassos lança livro

O designer, ilustrador e músico Travassos vai lançar o livro “Life is a simple mess”. Travassos é o designer responsável pela maioria das capas das editoras Clean Feed e Shhpuma e este livro reúne uma seleção de obras gráficas mais marcantes, imagens que têm definido a imagem do jazz contemporâneo do século XXI.

O livro resulta de uma edição conjunta Shhpuma / Chili com Carne e conta com textos da autoria de Nate Wooley, um dos mais relevantes e criativos trompetistas da actualidade. O livro inclui ainda um CD com uma selecção de temas de bandas nas quais Travassos tem participado nos últimos anos, como Big Bold Back Bone, Pinkdraft ou Pão (com Pedro Sousa e Tiago Sousa).

O livro “Life is a simple mess” será apresentado no Jazz em Agosto, no dia 4 de agosto, depois do concerto Larry Ochs’ The Fictive Five, na zona da venda de discos.

Livro: “Mas é Bonito” de Geoff Dyer

Mas-e-Bonito

O livro “Mas é Bonito” – “But Beautiful” no título original – é apresentado como “um livro sobre jazz”. E é verdade. O autor Geoff Dyer apresenta um conjunto de textos sobre figuras centrais da história do jazz: Lester Young, Thelonious Monk, Bud Powell, Ben Webster, Charles Mingus, Chet Baker e Art Pepper (selecção curiosa, evitando nomes óbvios). Os textos sobre cada um dos músicos são intermediados por diálogos entre Duke Ellington e Harry Carney, numa longa viagem entre concertos.

Ao longo do livro Dyer desenvolve textos breves, ficcionados a partir de momentos/histórias reais, sobretudo tendo por base fotografias icónicas e histórias conhecidas. Os textos são desenvolvidos com criatividade, pontuados por emoção, fazendo sempre uma ligação entre momentos da vida pessoal de cada músico e as características da própria música de cada um dos intervenientes.

A leitura é fácil e agradável e, além de desvendar episódios pessoais, tem como principal ponto positivo a capacidade de despertar a curiosidade sobre as músicas – o mais importante. As críticas estampadas na contracapa referem que este será “provavelmente o melhor livro que alguma vez se escreveu sobre jazz”. Claro exagero, tendo em conta a produção literária que vem sendo desenvolvida, mas não deixa de ser um objecto simpático.

Contudo apesar do tom agradável que caracteriza a maior parte da obra, o livro fecha num tom dissonante, com o acrescento de um posfácio desnecessário com o título “Tradição, Influência e Inovação”. Para encerrar, o autor apresenta ensaio-crítica sobre a história do jazz, partindo de uma análise social/histórica numa perspectiva pessoal – e muito superficial. Infelizmente, além de nada acrescentar à boa dinâmica literária, serve-se de factos errados para alimentar e condicionar uma linha de pensamento.

Entre as várias ideias questionáveis, refere-se à enérgica fase final de Coltrane como “esgotamento criativo”, faz uma ligação directa entre a ascensão do free jazz ao declínio de vendas de discos – factualmente errado, o jazz já há muito que tinha perdido as vendas, desde a afirmação do rock como música popular. Lamentável é também ignorar a contínua evolução da história do jazz, fazendo apenas uma breve referência aos anos 1980s para assinalar o ressurgimento do hardbop. É uma pena que o autor tenha acrescentado este posfácio, porque de resto se trata de um objecto literário aprazível, bem estruturado e desenvolvido.

Nota sobre a tradução:
A tradução para português foi realizada por Bruno Vieira Amaral. Não li o original para uma análise aprofundada, mas percebe-se que o trabalho de tradução de uma obra destas não será tarefa fácil, não só pela diversidade termos técnicos musicais, sobretudo pelas expressões características da cena jazzística. Contudo o maior problema – e mais visível – é mesmo o título do livro. “But Beautiful” é também o título de uma canção, standard intemporal, e seria difícil encontrar uma equivalência perfeita em português. Não seria um daqueles casos (raros) em que se poderia deixar o original, compensado com o subtítulo explicativo?

Livro: “Loft Jazz – Improvising New York in the 1970s”

O free jazz teve como principal espaço de desenvolvimento os “jazz lofts” de Nova Iorque. Com os espaços tradicionais (bares/clubes) a fecharem a programação a propostas mais exploratórias e inovadoras, começaram a surgir alternativas informais. Assim, antigos espaços industriais amplos (abandonados) em Manhattan, foram sendo transformados em áreas de criação cultural, especialmente focados no jazz criativo. No livro “Loft Jazz: Improvising New York in the 1970s”, Michael C. Heller analisa o fenómeno dos lofts, fazendo um retrato completo, combinado o contexto social e económico, além de todo o envolvimento musical. O texto do livro é desenvolvido de forma neutra, incluindo diversas perspectivas e visões, mas há uma linha que funciona de fonte principal, a perspectiva de Juma Sultan – activista e promotor de um dos lofts mais activos e representativos da cena, o Studio We.

Texto completo no site Bodypace:
http://bodyspace.net/etc/49-loft-jazz-improvising-new-york-in-the-1970s/

Disco/livro: “Cinza” de Carlos Santos / Nuno Moita

Carlos Santos / Nuno Moita
“Cinza” 
(Grain of Sound, 2017)

A mais recente edição da editora Grain of Sound é um objecto atípico. Não é um simples álbum, trata-se de um livro de fotografia que inclui um disco, sendo que os dois objectos se complementam para a fruição seja completa. Por um lado, o livro reúne um conjunto de fotografias da autoria de Nuno Moita, registadas entre 2009 e 2016, num total de 72 páginas. As fotografias são todas a preto e branco, com pouco contraste, sobressaindo sempre o cinzento – daí o “Cinza” do título. Cada imagem resulta de uma composição onde se juntam várias fotografias sobrepostas. O resultado não só é uma original mescla de mundos visuais, como cada imagem é intrigante, desperta a curiosidade.

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3121-cinza/