Ricardo Toscano Trio inaugura novo formato do ciclo MAPLE

[Fotografia: Vera Marmelo]

O ciclo de concertos promovidos pelo MAPLE – Live vai mudar de moldes. Numa parceria com a livraria Ler Devagar e a loja Jazz Messengers, os concertos vão passar a ter lugar na Ler Devagar, na LX Factory, em Lisboa, sempre aos domingos às 17h00. Os concertos continuarão a ter transmissão em streaming e passam a ter lugares presenciais – limitados. Este novo formato será inaugurado no dia 18 de Outubro com a actuação do Ricardo Toscano Trio. Os bilhetes podem ser ser adquiridos aqui.

Ao vivo: O Jazz tem Voz!

Fotografia: Atelier Obscura | Mónica de Sousa e Inês Domingues

Numa época marcada pela pandemia, pelos cancelamentos de espectáculos e pela quase ausência de trabalho para músicos e técnicos, nasceu surpreendentemente um novo festival de jazz. O festival O Jazz tem Voz! surgiu pela mão da produtora Clave na Mão, com o apoio do Fundo de Emergência Social da Câmara Municipal de Lisboa, realizando-se entre os dias 9 e 11 de Outubro em Lisboa. O programa apresentou quatro concertos de músicos portugueses, três deles no palco d’A Voz do Operário (daí o nome do festival), um deles num largo ao ar livre (e entrada livre), uma sessão didática e pedagógica (para o público infantil), uma exposição de cartazes históricos do Hot Clube de Portugal (a partir do livro Jazz Posters de João Fonseca), um workshop de ilustração de André Letria com alunos da escola d’A Voz do Operário e uma angariação de fundos para a União Audiovisual, que tem apoiado artistas e técnicos em dificuldade.

Sendo o festival indissociável do contexto da pandemia, é também importante focar a vertente artística e musical. O festival arrancou na noite de sexta-feira, dia 9, com a actuação do Bernardo Moreira Sexteto, que apresentou o projecto Entre Paredes. Em 2003 Moreira gravou o disco Ao Paredes Confesso, homenagem ao cancioneiro de Carlos Paredes com reinterpretações jazzísticas originais. O projecto Entre Paredes é uma recuperação e continuação dessa ideia, agora trabalhada com músicos diferentes e uma abordagem mais alargada que, apesar de manter o centro em Paredes, expõe uma homenagem lata à música portuguesa. Perante uma sala quase esgotada, o sexteto expôs a sua qualidade técnica, reflexo da qualidade individual de cada um dos intervenientes. Ao centro está o contrabaixo do líder Moreira, com dois sopros na frente, Tomás Marques (saxofone, talento da novíssima geração) e João Moreira (trompete), apoiados por Mário Delgado (guitarra), Ricardo Dias (piano) e Joel Silva (bateria). Além de Paredes, a setlist incluiu temas tradicionais, temas de Cristina Branco e de Zeca Afonso. Um dos destaques foi o clássico “Verdes Anos”, aqui numa versão despida, apenas trompete e piano, verdadeiramente memorável. A interpretação d’”A morte saiu à rua”, de Zeca Afonso, puxou pelo ritmo e o grupo mostrou-se exuberante. Como destaques, além do contrabaixo de Bernardo Moreira que exibiu versatilidade (ora pujante a marcar o ritmo, ora sensível a desenhar melodias), os holofotes focaram sobretudo o trompete expressivo de Moreira e o saxofone vibrante de Tomás Marques, um jovem talento que se afirma cada vez mais; e o veterano Mário Delgado que, apesar de trabalhar aqui num espaço reservado, não escondeu a sua guitarra preciosa adornada com efeitos. Após um final muito aplaudido, a banda foi obrigada a regressar para o encore. Foi um arranque perfeito para o festival.

O segundo dia de festival, sábado, abriu com uma conversa-debate, que reuniu três músicos – Beatriz Nunes, Gonçalo Marques e Demian Cabaud – e moderação de Sérgio Machado Letria, n’A Voz do Operário. Seguiu-se um concerto ao ar livre, num espaço público e com entrada livre. O trio Quang Ny Lys fez a sua estreia ao vivo no Largo de Santa Marinha, um largo na zona da Graça, em Lisboa, perante um espaço cheio, com todos os lugares sentados ocupados, muita gente em pé e até pessoas nas janelas de casa. Este grupo junta três nomes grandes do jazz português, dois deles vencedores do Prémio RTP/Festa do Jazz de Músico do Ano: Rita Maria (cantora) e João Mortágua (saxofonista) já foram galardoados. A eles junta-se o guitarrista Mané Fernandes, guitarrista do Porto que tem mostrado a sua originalidade ao leme de projectos como BounceLab e The Mantra of the pHat Lotus. A premissa – retrabalhar standards do cancioneiro jazzístico – poderia soar banal, mas pelos músicos envolvidos desconfiávamos que o projecto iria surpreender. O grupo faz uma exploração de conhecidos standards da história do jazz, mas fá-lo de uma forma muito original. Servindo-se de diversos efeitos electrónicos, na voz, mas também na guitarra e no saxofone, o trio desenvolve uma exploração atmosférica de clássicos como “I get along without you very well” ou “You go to my head”. Estas velhas músicas ganham novas cores pela abordagem criativa do grupo, assente no abuso de efeitos electrónicos, que resulta estranhamente interessante. O segundo dia de festival fechou com o grupo do saxofonista César Cardoso, que apresentou ao vivo o material do álbum Dice of Tenors, disco editado em 2020 que homenageia saxofonistas tenor históricos. Estiveram em palco César Cardoso (saxofone), Luís Cunha (trompete), José Soares (saxofone), Lars Arens (trombone), Jeffery Davis (vibrafone), Óscar Graça (piano), Demian Cabaud e Marcos Cavaleiro (bateria). Infelizmente não tivemos oportunidade de assistir a esta actuação.

No domingo o festival arrancou de manhã, com a sessão O Jazz é fixe!. Perante uma sala cheia de crianças e adultos acompanhantes, o trio constituído por Vânia Couto (voz e guitarra), Alvaro Rosso (contrabaixo) e João Mortágua (saxofone) serviu-se dos sons dos instrumentos para surpreender e cativar a atenção da pequenada, um público jovem mas exigente. Para fechar o festival, a Voz recebeu no final de tarde de domingo o duo Songbird. Este projecto, que junta Luís Figueiredo no piano e João Hasselberg no contrabaixo, trabalha uma exploração de melodias populares assentes apenas no piano e contrabaixo, uma abordagem clássica e despida, mas que consegue sempre conquistar os espectadores. Apesar de ter assistido apenas o início do espectáculo, daquilo que vi o duo confirmou os predicados e foram ao encontro daquilo que já nos mostraram os registos (Vol. I e Vol. II). Música delicada, mantendo o eixo melódico e sentimento. Foi uma boa despedida para o festival O Jazz tem Voz!, cujo surgimento é excelente notícia: pela oportunidade de dar palco a músicos e portugueses, pela luz de esperança que traz, pela vertente solidária. E também por ter aberto ao público as portas d’A Voz do Operário, que mostrou ter boas condições para acolher mais eventos. Que aí venham mais edições deste festival.

Texto publicado originalmente no site Jazz.pt.

Aí está o Caldas Nice Jazz

Manuel Linhares [Fotografia: Adriana Boiça Silva]

Está a chegar mais uma edição do festival de jazz das Caldas da Rainha. O Caldas Nice Jazz realiza-se entre os dias 29 de Outubro e 7 de Novembro e tem como palco o Centro Cultural e de Congressos. Nas Caldas vão actuar Manuel Linhares (29 Out.), Lokomotiv (30 Out.), Elisa Rodrigues com Carolina Deslandes e IRMA (31 Out.), Orquestra Jazz de Matosinhos (5 Nov.), Daniel Bernardes & Drumming GP (6 Nov.) e Maria João Ogre Electric (7 Nov.) Além do programa oficial, irão decorrer em paralelo diversos concertos em diferentes espaços da cidade.

Seixaljazz 2020: aqui está o programa completo


Isabel Rato

O festival SeixalJazz regressa entre os dias 15 e 24 de Outubro, apresentando um programa constituído exclusivamente por músicos portugueses. O festival apresenta um total de sete concertos no Fórum Cultural do Seixal: Sexteto de Jazz de Lisboa, André Rosinha Trio, TGB, trio Raon/Figueiredo/Hasselberg, Ricardo Pinheiro & Miguel Amado LAB, Isabel Rato Quinteto e Eduardo Cardinho Quarteto. Os bilhetes estarão à venda em breve na Ticketline e nos locais habituais.

Círculo ao vivo no MAPLE Live

[Fotografia: Márcia Lessa]

O trio Círculo apresenta-se ao vivo no Espaço Espelho d’Água esta segunda-feira, 28 de Setembro, às 18h00. O concerto terá lugares limitados e transmissão em directo no MAPLE Live. Círculo é um novo grupo que reúne três figuras centrais da cena jazz portuguesa: a cantora Rita Maria, o pianista Luís Figueiredo e o contrabaixista Mário Franco. O trio editou recentemente o seu disco de estreia.

Entrevista ao trio Círculo no site Jazz.pt

Garfo no MAPLE Live

Os Garfo vão apresentar-se num concerto em directo no MAPLE Live. O concerto será transmitido na segunda-feira, 14 de Setembro, às 18h00, a partir do Espaço Espelho d’Água. Este projecto reúne quatro jovens talentos da novíssima geração do jazz nacional: Bernardo Tinoco (saxofone), João Almeida (trompete), João Fragoso (contrabaixo) e João Sousa (bateria). Os bilhetes têm o custo de 6€ e podem ser adquiridos aqui.

Colheita 2020: “pandemia blues”

O ano de 2020 fica inevitavelmente marcado pela tenebrosa pandemia e pelo impacto que teve em todos nós. O sector cultural foi fortemente abalado, a música ao vivo ficou parada, mas muitos músicos não deixaram de editar música gravada, o que acabou por resultar num ano surpreendentemente rico. Aqui fica uma recolha da colheita das edições nacionais de jazz e música improvisada mais relevantes, editadas até ao momento neste ano maldito.


Desidério Lázaro / Luís Candeias
Unknown Road

(Robalo, 2020)

O saxofonista Desidério Lázaro juntou-se ao baterista Luís Candeias para um concerto integrado num ciclo dedicado ao disco Interstellar Space de John Coltrane. Gravado em duo entre Coltrane (saxofone tenor) e Rashied Ali (bateria), este é um disco mais cru na discografia de Coltrane (pela ausência de instrumentos harmónicos), mas o duo tratou de desenvolver uma improvisação enérgica e o álbum consolidou-se como referência universal. A dupla Lázaro-Candeias trata de explorar a improvisação livre, seguindo a inspiração de John Coltrane & Rashied Ali, aplicando as suas marcas próprias da individualidade. A dupla avança pela estrada desconhecida sem medo, ancorada numa alta intensidade free, que até agora não tínhamos ouvido de Desidério.


¡Golpe! + André Matos
Tundra

(Robalo, 2020)


¡Golpe! + Masa Kamaguchi
Totem

(Robalo, 2020)

Os ¡Golpe! são um duo de trompete e bateria, constituído por Gonçalo Marques e João Lopes Pereira. A combinação instrumental poderá ser atípica, mas a dupla trata de aproveitar e fazer render as possibilidades de cada instrumento, enlaçando diálogos surpreendentes. Este ano a dupla lançou dois discos em parceria com outros músicos, criando dois novos trios: com o guitarrista português (radicado em Nova Iorque) André Matos e com o contrabaixista japonês Masa Kamaguchi. Em ambos os trabalhos os músicos trabalham sobretudo temas originais, explorando dinâmicas instrumentais com sapiência e criatividade.


Hugo Raro
Connecting the Dots

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

O pianista Hugo Raro é uma figura central na cena Porta-Jazz, participando em diversos grupos e formações, contribuindo com o seu piano para muita da música que se faz a norte do Douro. Na sua estreia como líder, Raro lidera um quarteto que reúne João Mortágua (vencedor do prémio Play para melhor disco jazz, Janela), o baterista Marcos Cavaleiro (que acaba de editar um excelente disco de estreia como líder, Sete) e o contrabaixista José Carlos Barbosa. O pianista assina todas as composições, um total de sete temas. Quem esperasse um disco à volta de um piano intimista, desengane-se: o disco abre com o rugido de Mortágua, que marca a toada para o que se segue, uma música que está sempre a desafiar – e até inclui um momento de duo de saxofone e contrabaixo com arco. Liderado por Raro, o grupo mostra uma óptima dinâmica. Este é um bom cartão de visita de um músico que mostra merecer sair da sombra para receber o merecido reconhecimento.


Javier Subatin
Variaciones
(Edição de autor, 2020)

O guitarrista argentino Javier Subatin (Buenos Aires, 1985), a residir em Portugal há alguns anos, estreou-se na condição de líder com o disco Autotelic (Sintoma, 2018). Esse projecto nasceu como duo, numa colaboração entre Subatin e o pianista português João Paulo Esteves da Silva, e a formação completou-se com Desidério Lázaro no saxofone, André Rosinha no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria. Nesse disco Subatin já assinara a composição de todos os oito temas. Para o seu segundo registo, Variaciones, Subatin mantém o eixo do grupo anterior – João Paulo no piano, André Rosinha no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria; há apenas uma troca, no saxofone: sai Desidério e entra Pedro Moreira. O grupo desenvolve uma música original, aproveitando a originalidade da composição e a qualidade dos intervenientes, todos músicos de topo do jazz nacional.


João Almeida
Solo Sessions

(Edição de autor, 2020)

Trompetista da nova geração do jazz nacional, João Almeida tem colaborado em diversos grupos, entre a improvisação livre o jazz mais convencional. No seu disco de estreia, Almeida faz uma exploração sónica do instrumento, servindo-se de diversas abordagens e técnicas, desafiando o papel tradicional do instrumento – lembrando o trabalho de Peter Evans, trompetista que nos últimos anos revolucionou o trompete com criatividade. Curiosamente (ou não), Almeida colaborou com Peter Evans na residência/workshop Som Crescente, uma iniciativa promovida pela Galeria ZDB com Evans a orientar um grupo de jovens músicos portugueses – e sua a apresentação ao vivo no Jardim de Verão da Gulbenkian mostrou a qualidade do trabalho. Neste disco Almeida revela a sua expressividade, originalidade e inventividade, manipulando o instrumento a seu bel-prazer e daí nasce uma música curiosa que desafia convenções. Venham daí mais destes.


Luís Lopes Humanization Quartet
Believe, Believe

(Clean Feed, 2020)

Entre o jazz e o rock, conduzidos por saxofone e guitarra em diálogo e uma secção rítmica enérgica, o Humanization Quartet é responsável por alguma da música mais ardente feita por músicos portugueses nos últimos anos – os discos Humanization 4tet, Electricity e Live In Madison são essenciais. Este novo volume não traz muitas novidades para quem já conheça o seu som, mas mostra o quarteto de Luís Lopes (guitarra eléctrica), Rodrigo Amado (saxofone tenor), Aaron González (contrabaixo) e Stefan González (bateria) em excelente forma, a queimar terreno numa música assente em composições simples que servem de rastilho. O quarteto desbasta uma música intensa que cruza jazz, rock, improvisação e funk, sempre a direito.


MAZAM
Land

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

É certo que o jazz português é demasiado pequeno para se poder falar em “super-grupos”, mas se existissem este seria um deles. Com o saxofone de João Mortágua, o piano Carlos Azevedo, o contrabaixo de Miguel Ângelo e a bateria de Mário Costa, o quarteto MAZAM (Mortágua-AZevedo-Ângelo-Mário) desenvolve uma música jazz exploratória, que foge do cânone mainstream, procurando novos caminhos e soluções. Os intervenientes “allstar” tratam de conduzir o processo com inteligência e tranquilidade, encontrando soluções fora da caixa. Pelos nomes envolvidos a expectativa estava alta logo à partida, e este disco não desilude.


Miguel Moreira
The Darkness of the Unknown

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

O arranque do disco é sintomático: a guitarra a abusar do pedal de efeitos, causando turbulência, até que a toada estabiliza, os instrumentos vão entrando e o tema começa a ganhar uma certa forma. Este projecto do guitarrista Miguel Moreira foi desenvolvido no âmbito da parceria da Porta-Jazz com o festival Guimarães Jazz e, para lá da música, há também uma vertente de dança – coreografia e interpretação de Valter Fernandes. Moreira reúne um grupo atípico: a sua guitarra é apoiada por Lucien Dubuis (clarinete), Rui Rodrigues (percussão), e Mário Costa (bateria). Os temas têm formas estranhas, fogem a classificações, mas estranhamente conquistam o ouvinte. Ao ouvirmos esta música damos um verdadeiro mergulho no escuro do desconhecido e raras vezes o título de um disco se mostrou tão adequado como aqui.


NOA
Evidentualmente

(Edição de autor, 2020)

O grupo NOA é um trio formado por três figuras de peso da cena jazz nacional: Nuno Costa na guitarra eléctrica, Óscar Marcelino da Graça nos teclados e André Sousa Machado na bateria. Todos músicos com percursos sólidos e múltiplos projectos, Evidentualmente é o disco de estreia deste trio que aqui explora diferentes ambientes musicais. Destaca-se a qualidade das composições (todas da autoria de Costa) e a música dos NOA assume a forma de um jazz aberto a influências, sobretudo pop e rock. A música deste disco flui descontraidamente, trabalhada por três senhores que aplicam a técnica individual ao serviço do colectivo.


Nuno Campos 4tet
TaCatarinaTen

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

Contrabaixista portuense, Nuno Campos editou em 2011 o seu disco de estreia My debut for the ones close to me na importante editora catalã Fresh Sound New Talent. Agora, Campos apresenta um novo trabalho editado pelo Carimbo Porta-Jazz, ao leme de um quarteto que reúne José Pedro Coelho (saxofones), Miguel Meirinhos (piano) e Ricardo Coelho (bateria). O líder contrabaixista assina aqui a composição de quase todos os temas (excepto “The Nearness of You”) e o grupo trata de os interpretar com qualidade. O grupo apresenta um jazz sóbrio e delicado e Campos exibe o som preciso do seu contrabaixo.


Old Mountain
Parallels

(Nischo, 2020)


Old Mountain
This Is Not Our Music

(Nischo, 2020)

Old Mountain é um outro duo nacional, constituído por dois músicos da nova geração, Pedro Branco (guitarra) e João Sousa (bateria). A dupla editou dois álbuns em simultâneo através da editora Nischo, dois álbuns com características diferentes. Em Parallels Branco e Sousa contam com a companhia do trompete de Gonçalo Marques (também dos ¡Golpe!); no disco This Is Not Our Music (o título entra na brincadeira com o disco icónico This Is Our Music de Ornette Coleman) a dupla Branco/Sousa conta com o apoio de um três parceiros: Nicolo Ricci no saxofone, Mauro Cottone no contrabaixo e George Durmitriu na viola num tema. As composições são quase todas originais (no disco Parallels a composição é partilhada com Gonçalo Marques). O diálogo criativo entre guitarra e bateria está sempre no centro, mas no disco com Marques o trompete faz por se evidenciar, entrelaçando-se na dinâmica do duo com toda a naturalidade. No disco This Is Not Our Music há um maior envolvimento colectivo, sente-se um “som de grupo”. O destaque vai para a belíssima “Ballad for Paul”, interpretada em ambos os discos: brilha sobretudo com o trompete luminoso de Marques, mas revela outras cores na interpretação do quarteto.


Pedro Melo Alves
In Igma

(Clean Feed, 2020)

Baterista, compositor e improvisador, Pedro Melo Alves já se tinha afirmado com o grupo The Rite of Trio e ao leme do Omniae Ensemble, projecto que venceu o Prémio de Composição Bernardo Sassetti. Na sequência de uma encomenda do programador Rui Eduardo Paes para o festival Jazz no Parque, em Julho de 2019 Melo Alves apresentou ao vivo o projecto In Igma, reunindo músicos oriundos de diferentes universos: Aubrey Johnson (voz), Beatriz Nunes (voz), Mariana Dionísio (voz), Eve Risser (piano), Mark Dresser (contrabaixo) e Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada). O disco que foi agora editado combina elementos da música erudita contemporânea e práticas da improvisação, daqui resultando uma música originalíssima. Sem dúvida, um dos discos mais especiais e inclassificáveis deste 2020.


Ricardo Pinheiro / Miguel Amado
LAB

(Asur, 2020)

Neste disco encontramos um quarteto que cruza duas gerações: os já consagrados Ricardo Pinheiro (guitarra) e Miguel Amado (baixo) juntam-se com duas promessas da novíssima geração da cena nacional: Tomás Marques (saxofones) e Diogo Alexandre (bateria). O quarteto interpreta um conjunto de sete temas originais (quatro de Pinheiro, três de Amado), com energia e foco. Destaca-se sobretudo a performance dos mais jovens, Marques e Alexandre, músicos de extraordinária qualidade técnica, que mais uma vez mostram que o futuro é deles.


Vasco Trilla
The Weeping Meadow

(Confront, 2020)

Vasco Trilla é um percussionista luso-catalão que tem colaborado em inúmeros projectos com músicos portugueses, onde se destaca o duo com Luís Vicente registado no álbum A Brighter Side of Darkness (Clean Feed, 2019). Neste novo disco Trilla apresenta uma curiosa exploração de bateria e percussão a solo. Apesar de ser uma aposta arriscada, por trabalhar exclusivamente com a percussão e assumindo todas as limitações, Vasco Trilla mostra ao longo de cerca de meia hora um trabalho criativo de filigrana, assente na exploração textural, onde explora a multiplicidade de possibilidades sonoras e o resultado é muito interessante.


Vítor Joaquim & Carlos Zíngaro
At ZDB, Lisbon 2006

(Edição de autor, 2020)

Neste ano de 2020 Vítor Joaquim publicou três gravações antigas, todos registos de actuações ao vivo: At The Spitz, London, 2005 (com Simon Fisher Turner), At ZDB, Lisbon, 2006 (com Carlos Zíngaro) e At Fonoteca, Lisboa, 2005 (com Nuno Moita/Draftank). Destacamos a gravação de 2006 que juntou Vítor Joaquim com o violinista Carlos Zíngaro na Galeria ZDB. Esta actuação partiu de uma ideia simples: Carlos Zíngaro tocava o violino e o sinal seria dividido em dois canais, um para a mesa de mistura e outro para o laptop de Joaquim, que trabalharia a partir do som que chegava. Assim, Zíngaro improvisa livremente e o som é transformado por Joaquim, que vai acrescentando novas camadas de som. O resultado é uma interessante combinação de sons, uma criativa amálgama sonora que conquista sorrateiramente o ouvinte.

Fora desta recolha ficam discos igualmente marcantes editados este ano, mas que foram já alvo de crítica ou destaque: Portrait e Solo I de João Barradas, Um de João Guimarães, Open Space de Rafael Toral e This Was What Will Be de Eduardo Raon / Luís Figueiredo / João Hasselberg.

Que Jazz É Este apresenta-se

O festival Que Jazz É Este? realiza-se em Viseu e chega este ano à sua 8.ª edição. Numa pequena entrevista, Ana Bento (organização) apresenta o festival.

Podem fazer uma apresentação o festival? Principais destaques?
O festival Que Jazz É Este? é um festival apoiado pelo programa Viseu Cultura do Município de Viseu e conta com outros importantes parceiros locais. O Que Jazz É Este? apresenta-se este ano na sua 8ª. edição e assenta desde a sua génese em 3 grandes pilares fundamentais: a oferta eclética e de qualidade de concertos com foco especial no jazz (no sentido mais amplo possível); a criação de dinâmicas e oportunidades quer de formação e profissionalização na área da música, assim como experiências educativas para público em geral; o desafiar novos públicos e ir ao encontro de públicos que pelas mais variadas razões estão impedidos de virem ao encontro do festival. É difícil fazer destaques quando a programação é tão vasta e diversificada por isso destacamos a estrutura que os vários dias do festival têm e cujos conteúdos específicos podem ser consultados de forma detalhada no site oficial (quejazzeeste.com): Rádio Rossio ao vivo a partir das 10h da manhã na Praça da República com 3 programas por dia, uma oficina para Famílias que decorre também às 10h na Casa do Miradouro, Jazz na Rua com partida do Rossio às 11h, um concerto às 19h (ora no jardim da Casa do Miradouro, ora num jardim junto ao Carmo81) e um concerto às 21h30 (o primeiro que decorreu no adro da Sé, agora acontece no Parque Aqulino Ribeiro e, no último dia, no Teatro Viriato). Desde as maiores e incontornáveis figuras do jazz português como Carlos Bica ou Mário Laginha, à fortíssima nova geração de músicos portugueses como João Guimarães ou Miguel Rodrigues, aos projectos mais experimentais Krake e Uhai ou nos limites mais amplos do jazz que tocam outros géneros como rock/pop (Whosputo) ou metal (Trolls Toy)…

Como fizeram a adaptação do programa, com os constrangimentos da pandemia?
A estrutura do festival foi redesenhada. Os habituais 5 dias consecutivos passaram a estar distribuídos entre 22 de julho e 30 de setembro (sempre às quartas feiras), as várias iniciativas foram programadas para vários locais de forma em vez de haver um local como foco principal (o que aconteceu nas edições anteriores no Parque Aquilino RIbeiro), houve uma estreita comunicação com a Protecção Civil local no planeamento das várias actividades, a equipa de produção e acolhimento de público foi reforçada.

Que ensinamentos vão levar desta edição para o próximo ano?
Essencialmente que vale a pena o esforço de levarmos as nossas vidas para a frente, de procurarmos alternativas para tornarmos as coisas possíveis, ainda que em formatos diferentes do que consideramos ideal. Ou em escalas muito mais pequenas que o habitual. É importante encontrarmos um equilíbrio do sermos responsáveis e zelarmos pela segurança de cada um e da comunidade em geral com o fazer acontecer e criar e alimentar as dinâmicas e práticas culturais e artísticas.

Livro: “Women In Jazz”

Women In Jazz: The women, the legends & their fight
Sammy Stein
(8th House Publishing, 2019)

As questões de igualdade de género começaram nos últimos anos a invadir os mais diversos espectros da sociedade, incluindo as artes e a cultura. O jazz não é excepção e esta é uma área especialmente rica para o debate. Sendo um mundo tradicionalmente masculino, historicamente no jazz o papel das mulheres esteve quase exlusivamente reservado para a voz – além de cantoras, são muito poucas as referências históricas femininas. Apesar de estarmos a viver uma evolução e de, nas décadas recentes terem surgido diversas mulheres instrumentistas que se distinguiram e afirmaram, ainda há festivais e salas que apresentam programações quase exclusivamente masculinas.

Com este novo livro, Women In Jazz: The women, the legends & their fight, a autora Sammy Stein explora a desigualdade de género neste universo musical. Grosso modo, o livro divide-se em duas partes: passado e presente. Na primeira metade a autora apresenta um conjunto de referências importantes do passado, com as inevitáveis cantoras populares (Billie Holiday, Ella Fitzgerald ou Nina Simone, entre outras), mas inclui também instrumentistas notáveis que não chegaram a alcançar o merecido reconhecimento público – como Melba Liston e Hazel Scott. Stein traça o percurso biográfico de cada uma destas figuras, referindo também circunstâncias em que as questões de género condicionaram as suas carreiras.

No segundo grande bloco do livro a autora olha para o presente, colocando diversas questões. A ausência de referências e “role models”, a forma como a educação e as escolas condicionam a aprendizagem e escolhas de percurso, a necessidade de ter de trabalhar mais e de mostrar mais do que um homem, questões de misoginia, sexualidade, violência e abuso são alguns dos temas referidos. Para esta abordagem a autora reúne um conjunto de entrevistas a compositoras, instrumentistas e cantoras da actualidade, participando nomes como Jane Ira Bloom, Terri Lyne Carrington, Kim Cypher, Barb Jungr e Carmela Rappazzo, entre outras. São ainda entrevistadas mulheres ligadas ao negócio da música, como agentes, promotoras, jornalistas e divulgadoras.

Embora o olhar para o passado seja relevante, essa retrospectiva histórica acaba por não acrescentar muito àquilo que os fãs já conheciam. A grande mais valia deste livro é mesmo a segunda metade, a abordagem do presente, cruzando questões e respostas, colocando diversas ideias em perspectiva. A autora expõe as ideias das intervenientes que estão no centro de tudo e, sem apresentar soluções mágicas, lança diversas pistas importantes para promover o pensamento crítico e uma discussão rica.

Em 2020 há diversos projectos jazzísticos (no mundo e também em Portugal) liderados por mulheres que merecem reconhecimento e exposição. Começam também a surgir iniciativas para a promoção da igualdade: o colectivo artístico We Have Voice de Nova Iorque (que inclui a portuguesa Sara Serpa) tem o objectivo de alertar, sensibilizar e actuar contra o assédio sexual e a discriminação; em Portugal surgiu no início deste ano a página de Facebook Mulheres do Jazz (da autoria de Beatriz Nunes, Joana Machado, Andreia Nunes e Joana Espadinha) dedicada a divulgar o jazz no feminino, as mulheres no Jazz, em Portugal e no mundo – mais um passo para promover a igualdade. A mudança está a fazer-se devagar, mas está a acontecer.