Garfo “ao vivo” no MAPLE Live

Os Garfo vão apresentar-se num concerto em directo no MAPLE Live. O concerto será transmitido na segunda-feira, 14 de Setembro, às 18h00, a partir do Espaço Espelho d’Água. Este projecto reúne quatro jovens talentos da novíssima geração do jazz nacional: Bernardo Tinoco (saxofone), João Almeida (trompete), João Fragoso (contrabaixo) e João Sousa (bateria). Os bilhetes têm o custo de 6€ e podem ser adquiridos aqui.

Colheita 2020: “pandemia blues”

O ano de 2020 fica inevitavelmente marcado pela tenebrosa pandemia e pelo impacto que teve em todos nós. O sector cultural foi fortemente abalado, a música ao vivo ficou parada, mas muitos músicos não deixaram de editar música gravada, o que acabou por resultar num ano surpreendentemente rico. Aqui fica uma recolha da colheita das edições nacionais de jazz e música improvisada mais relevantes, editadas até ao momento neste ano maldito.


Desidério Lázaro / Luís Candeias
Unknown Road

(Robalo, 2020)

O saxofonista Desidério Lázaro juntou-se ao baterista Luís Candeias para um concerto integrado num ciclo dedicado ao disco Interstellar Space de John Coltrane. Gravado em duo entre Coltrane (saxofone tenor) e Rashied Ali (bateria), este é um disco mais cru na discografia de Coltrane (pela ausência de instrumentos harmónicos), mas o duo tratou de desenvolver uma improvisação enérgica e o álbum consolidou-se como referência universal. A dupla Lázaro-Candeias trata de explorar a improvisação livre, seguindo a inspiração de John Coltrane & Rashied Ali, aplicando as suas marcas próprias da individualidade. A dupla avança pela estrada desconhecida sem medo, ancorada numa alta intensidade free, que até agora não tínhamos ouvido de Desidério.


¡Golpe! + André Matos
Tundra

(Robalo, 2020)


¡Golpe! + Masa Kamaguchi
Totem

(Robalo, 2020)

Os ¡Golpe! são um duo de trompete e bateria, constituído por Gonçalo Marques e João Lopes Pereira. A combinação instrumental poderá ser atípica, mas a dupla trata de aproveitar e fazer render as possibilidades de cada instrumento, enlaçando diálogos surpreendentes. Este ano a dupla lançou dois discos em parceria com outros músicos, criando dois novos trios: com o guitarrista português (radicado em Nova Iorque) André Matos e com o contrabaixista japonês Masa Kamaguchi. Em ambos os trabalhos os músicos trabalham sobretudo temas originais, explorando dinâmicas instrumentais com sapiência e criatividade.


Hugo Raro
Connecting the Dots

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

O pianista Hugo Raro é uma figura central na cena Porta-Jazz, participando em diversos grupos e formações, contribuindo com o seu piano para muita da música que se faz a norte do Douro. Na sua estreia como líder, Raro lidera um quarteto que reúne João Mortágua (vencedor do prémio Play para melhor disco jazz, Janela), o baterista Marcos Cavaleiro (que acaba de editar um excelente disco de estreia como líder, Sete) e o contrabaixista José Carlos Barbosa. O pianista assina todas as composições, um total de sete temas. Quem esperasse um disco à volta de um piano intimista, desengane-se: o disco abre com o rugido de Mortágua, que marca a toada para o que se segue, uma música que está sempre a desafiar – e até inclui um momento de duo de saxofone e contrabaixo com arco. Liderado por Raro, o grupo mostra uma óptima dinâmica. Este é um bom cartão de visita de um músico que mostra merecer sair da sombra para receber o merecido reconhecimento.


Javier Subatin
Variaciones
(Edição de autor, 2020)

O guitarrista argentino Javier Subatin (Buenos Aires, 1985), a residir em Portugal há alguns anos, estreou-se na condição de líder com o disco Autotelic (Sintoma, 2018). Esse projecto nasceu como duo, numa colaboração entre Subatin e o pianista português João Paulo Esteves da Silva, e a formação completou-se com Desidério Lázaro no saxofone, André Rosinha no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria. Nesse disco Subatin já assinara a composição de todos os oito temas. Para o seu segundo registo, Variaciones, Subatin mantém o eixo do grupo anterior – João Paulo no piano, André Rosinha no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria; há apenas uma troca, no saxofone: sai Desidério e entra Pedro Moreira. O grupo desenvolve uma música original, aproveitando a originalidade da composição e a qualidade dos intervenientes, todos músicos de topo do jazz nacional.


João Almeida
Solo Sessions

(Edição de autor, 2020)

Trompetista da nova geração do jazz nacional, João Almeida tem colaborado em diversos grupos, entre a improvisação livre o jazz mais convencional. No seu disco de estreia, Almeida faz uma exploração sónica do instrumento, servindo-se de diversas abordagens e técnicas, desafiando o papel tradicional do instrumento – lembrando o trabalho de Peter Evans, trompetista que nos últimos anos revolucionou o trompete com criatividade. Curiosamente (ou não), Almeida colaborou com Peter Evans na residência/workshop Som Crescente, uma iniciativa promovida pela Galeria ZDB com Evans a orientar um grupo de jovens músicos portugueses – e sua a apresentação ao vivo no Jardim de Verão da Gulbenkian mostrou a qualidade do trabalho. Neste disco Almeida revela a sua expressividade, originalidade e inventividade, manipulando o instrumento a seu bel-prazer e daí nasce uma música curiosa que desafia convenções. Venham daí mais destes.


Luís Lopes Humanization Quartet
Believe, Believe

(Clean Feed, 2020)

Entre o jazz e o rock, conduzidos por saxofone e guitarra em diálogo e uma secção rítmica enérgica, o Humanization Quartet é responsável por alguma da música mais ardente feita por músicos portugueses nos últimos anos – os discos Humanization 4tet, Electricity e Live In Madison são essenciais. Este novo volume não traz muitas novidades para quem já conheça o seu som, mas mostra o quarteto de Luís Lopes (guitarra eléctrica), Rodrigo Amado (saxofone tenor), Aaron González (contrabaixo) e Stefan González (bateria) em excelente forma, a queimar terreno numa música assente em composições simples que servem de rastilho. O quarteto desbasta uma música intensa que cruza jazz, rock, improvisação e funk, sempre a direito.


MAZAM
Land

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

É certo que o jazz português é demasiado pequeno para se poder falar em “super-grupos”, mas se existissem este seria um deles. Com o saxofone de João Mortágua, o piano Carlos Azevedo, o contrabaixo de Miguel Ângelo e a bateria de Mário Costa, o quarteto MAZAM (Mortágua-AZevedo-Ângelo-Mário) desenvolve uma música jazz exploratória, que foge do cânone mainstream, procurando novos caminhos e soluções. Os intervenientes “allstar” tratam de conduzir o processo com inteligência e tranquilidade, encontrando soluções fora da caixa. Pelos nomes envolvidos a expectativa estava alta logo à partida, e este disco não desilude.


Miguel Moreira
The Darkness of the Unknown

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

O arranque do disco é sintomático: a guitarra a abusar do pedal de efeitos, causando turbulência, até que a toada estabiliza, os instrumentos vão entrando e o tema começa a ganhar uma certa forma. Este projecto do guitarrista Miguel Moreira foi desenvolvido no âmbito da parceria da Porta-Jazz com o festival Guimarães Jazz e, para lá da música, há também uma vertente de dança – coreografia e interpretação de Valter Fernandes. Moreira reúne um grupo atípico: a sua guitarra é apoiada por Lucien Dubuis (clarinete), Rui Rodrigues (percussão), e Mário Costa (bateria). Os temas têm formas estranhas, fogem a classificações, mas estranhamente conquistam o ouvinte. Ao ouvirmos esta música damos um verdadeiro mergulho no escuro do desconhecido e raras vezes o título de um disco se mostrou tão adequado como aqui.


NOA
Evidentualmente

(Edição de autor, 2020)

O grupo NOA é um trio formado por três figuras de peso da cena jazz nacional: Nuno Costa na guitarra eléctrica, Óscar Marcelino da Graça nos teclados e André Sousa Machado na bateria. Todos músicos com percursos sólidos e múltiplos projectos, Evidentualmente é o disco de estreia deste trio que aqui explora diferentes ambientes musicais. Destaca-se a qualidade das composições (todas da autoria de Costa) e a música dos NOA assume a forma de um jazz aberto a influências, sobretudo pop e rock. A música deste disco flui descontraidamente, trabalhada por três senhores que aplicam a técnica individual ao serviço do colectivo.


Nuno Campos 4tet
TaCatarinaTen

(Carimbo Porta-Jazz, 2020)

Contrabaixista portuense, Nuno Campos editou em 2011 o seu disco de estreia My debut for the ones close to me na importante editora catalã Fresh Sound New Talent. Agora, Campos apresenta um novo trabalho editado pelo Carimbo Porta-Jazz, ao leme de um quarteto que reúne José Pedro Coelho (saxofones), Miguel Meirinhos (piano) e Ricardo Coelho (bateria). O líder contrabaixista assina aqui a composição de quase todos os temas (excepto “The Nearness of You”) e o grupo trata de os interpretar com qualidade. O grupo apresenta um jazz sóbrio e delicado e Campos exibe o som preciso do seu contrabaixo.


Old Mountain
Parallels

(Nischo, 2020)


Old Mountain
This Is Not Our Music

(Nischo, 2020)

Old Mountain é um outro duo nacional, constituído por dois músicos da nova geração, Pedro Branco (guitarra) e João Sousa (bateria). A dupla editou dois álbuns em simultâneo através da editora Nischo, dois álbuns com características diferentes. Em Parallels Branco e Sousa contam com a companhia do trompete de Gonçalo Marques (também dos ¡Golpe!); no disco This Is Not Our Music (o título entra na brincadeira com o disco icónico This Is Our Music de Ornette Coleman) a dupla Branco/Sousa conta com o apoio de um três parceiros: Nicolo Ricci no saxofone, Mauro Cottone no contrabaixo e George Durmitriu na viola num tema. As composições são quase todas originais (no disco Parallels a composição é partilhada com Gonçalo Marques). O diálogo criativo entre guitarra e bateria está sempre no centro, mas no disco com Marques o trompete faz por se evidenciar, entrelaçando-se na dinâmica do duo com toda a naturalidade. No disco This Is Not Our Music há um maior envolvimento colectivo, sente-se um “som de grupo”. O destaque vai para a belíssima “Ballad for Paul”, interpretada em ambos os discos: brilha sobretudo com o trompete luminoso de Marques, mas revela outras cores na interpretação do quarteto.


Pedro Melo Alves
In Igma

(Clean Feed, 2020)

Baterista, compositor e improvisador, Pedro Melo Alves já se tinha afirmado com o grupo The Rite of Trio e ao leme do Omniae Ensemble, projecto que venceu o Prémio de Composição Bernardo Sassetti. Na sequência de uma encomenda do programador Rui Eduardo Paes para o festival Jazz no Parque, em Julho de 2019 Melo Alves apresentou ao vivo o projecto In Igma, reunindo músicos oriundos de diferentes universos: Aubrey Johnson (voz), Beatriz Nunes (voz), Mariana Dionísio (voz), Eve Risser (piano), Mark Dresser (contrabaixo) e Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada). O disco que foi agora editado combina elementos da música erudita contemporânea e práticas da improvisação, daqui resultando uma música originalíssima. Sem dúvida, um dos discos mais especiais e inclassificáveis deste 2020.


Ricardo Pinheiro / Miguel Amado
LAB

(Asur, 2020)

Neste disco encontramos um quarteto que cruza duas gerações: os já consagrados Ricardo Pinheiro (guitarra) e Miguel Amado (baixo) juntam-se com duas promessas da novíssima geração da cena nacional: Tomás Marques (saxofones) e Diogo Alexandre (bateria). O quarteto interpreta um conjunto de sete temas originais (quatro de Pinheiro, três de Amado), com energia e foco. Destaca-se sobretudo a performance dos mais jovens, Marques e Alexandre, músicos de extraordinária qualidade técnica, que mais uma vez mostram que o futuro é deles.


Vasco Trilla
The Weeping Meadow

(Confront, 2020)

Vasco Trilla é um percussionista luso-catalão que tem colaborado em inúmeros projectos com músicos portugueses, onde se destaca o duo com Luís Vicente registado no álbum A Brighter Side of Darkness (Clean Feed, 2019). Neste novo disco Trilla apresenta uma curiosa exploração de bateria e percussão a solo. Apesar de ser uma aposta arriscada, por trabalhar exclusivamente com a percussão e assumindo todas as limitações, Vasco Trilla mostra ao longo de cerca de meia hora um trabalho criativo de filigrana, assente na exploração textural, onde explora a multiplicidade de possibilidades sonoras e o resultado é muito interessante.


Vítor Joaquim & Carlos Zíngaro
At ZDB, Lisbon 2006

(Edição de autor, 2020)

Neste ano de 2020 Vítor Joaquim publicou três gravações antigas, todos registos de actuações ao vivo: At The Spitz, London, 2005 (com Simon Fisher Turner), At ZDB, Lisbon, 2006 (com Carlos Zíngaro) e At Fonoteca, Lisboa, 2005 (com Nuno Moita/Draftank). Destacamos a gravação de 2006 que juntou Vítor Joaquim com o violinista Carlos Zíngaro na Galeria ZDB. Esta actuação partiu de uma ideia simples: Carlos Zíngaro tocava o violino e o sinal seria dividido em dois canais, um para a mesa de mistura e outro para o laptop de Joaquim, que trabalharia a partir do som que chegava. Assim, Zíngaro improvisa livremente e o som é transformado por Joaquim, que vai acrescentando novas camadas de som. O resultado é uma interessante combinação de sons, uma criativa amálgama sonora que conquista sorrateiramente o ouvinte.

Fora desta recolha ficam discos igualmente marcantes editados este ano, mas que foram já alvo de crítica ou destaque: Portrait e Solo I de João Barradas, Um de João Guimarães, Open Space de Rafael Toral e This Was What Will Be de Eduardo Raon / Luís Figueiredo / João Hasselberg.