ECM Records, 2017: A história continua

Apesar de todo o seu rico passado, a histórica ECM continua a mostrar-se como editora viva e ainda no ano passado publicou pérolas como “A Cosmic Rhythm with Each Stroke” da dupla Wadada Leo Smith & Vijay Iyer e outros discos memoráveis. Já não se trata de pura música “fria”, “gélida” ou “atmosférica”, hoje em dias as coordenadas meteorológicas continuam límpidas, mas são mais amplas. Na sua versatilidade, sempre com absoluta elegância, a editora alemã continua a marcar a cena jazz do nosso tempo. Aqui ficam alguns discos editados já neste ano de 2017, que voltam a afirmar a sua relevância e actualidade.



Craig Taborn
“Daylight Ghosts”
(ECM, 2017)

Depois de “Avenging Angel” (solo, 2011) e “Chants” (2013), o pianista e compositor Craig Taborn apresenta-se ao leme de um quarteto onde pontificam nomes grandes: Chris Speed (saxofone tenor e clarinete), Chris Lightcap (contrabaixo e baixo eléctrico) e Dave King (dos The Bad Plus, na bateria). Todas as músicas são da autoria de Taborn, com a excepção de “Jamaican Farwell” de Roscoe Mitchell (do lendário Art Ensemble of Chicago). Apesar da música de Craig Taborn estar a evoluir num processo de contínuo amadurecimento, neste “Daylight Ghosts” a música soa estranhamente conservadora. Desde logo, Taborn foca-se sobretudo no piano clássico, deixando a electrónica de lado – a sua utilização é pontual e subtil. Já muito afastada da urgência explosiva de “Junk Magic”, a música de Taborn é agora madura, elegante, sóbria. Acompanhado por um grupo de músicos superlativos, o resultado é uma música que não se anuncia rebelde, é mais subtil, e continua desafiante.

 


John Abercrombie Quartet
“Up and Coming”
(ECM, 2017)

Infeliz ironia do destino: ouvir este disco pela primeira vez num dia, no dia seguinte ficar a saber que o veterano guitarrista John Abercrombie morreu. Com este disco, Abercrombie regressou ao seu último quarteto onde teve a companhia de três grandes vultos do jazz moderno: Marc Copland (piano), Drew Gress (contrabaixo) e Joey Baron (bateria). O quarteto que já tinha gravado o aplaudido “39 Steps” (editado em 2013), interpreta aqui um conjunto de temas originais, juntando-se ainda a revisão de um tema de Miles Davis – uma belíssima “Nardis”. Ao longo do seu percurso Abercrombie sempre mostrou saber dialogar, como acontece nos seminais discos “Sargasso Sea” (duo com Ralph Towner) ou “Timeless” (trio com Jan Hammer e Jack DeJohnette). A ligação de piano e guitarra, instrumentos harmónicos com funções semelhantes, não é problema, Abercrombie e Copland – parceiros musicais com muita história partilhada – sabem interagir em perfeita ligação, alternando papéis, não se sobrepondo, dialogando com inteligência. Este disco ficará necessariamente como testemunho musical de Abercrombie. E que belo testemunho que é.

 


Theo Bleckmann
“Elegy”
(ECM, 2017)

Theo Bleckmann é um caso raro no jazz contemporâneo. O extraordinário cantor vem trabalhando um percurso sem mácula, mantendo-se sabiamente afastado do jazz-pop para onde parecem escorregar todas as promessas vocais. Neste disco novo, que representa a sua estreia como líder na ECM, o cantor conta com a participação de dois nomes grandes do jazz actual, o guitarrista Ben Monder (guitarra) e o baterista John Hollenbeck (mentor do The Claudia Quintet) – dois músicos com quem colabora de forma regular. Participam também no disco Shai Maestro no piano e Chris Tordini no contrabaixo. Neste novo disco apresenta Bleckmann um conjunto de temas originais, marcados por um impecável bom gosto e sobriedade, aproximando-se até de uma certa toada religiosa. Entre temas cantados com palavras e canções sem palavras, todo o disco é pontuado por uma perfeita elegância melancólica, que faz jus ao título.

 


Aaron Parks / Bem Street / Billy Hart
“Find the Way”
(ECM, 2017)

Naquele que é o seu oitavo disco como líder e o segundo registo publicado pela ECM, o pianista americano Aaron Parks apresenta-se agora em trio, após a estreia na editora com o solo “Arborescence” (2013). Este clássico trio de piano une duas gerações, os jovens Parks e Ben Street com o veteraníssimo Billy Hart (n. 1940). Parks assina oito das nove composições que integram o disco, temas com personalidade. O trio ataca as composições com precisão, mas sem explosão, a música é sempre tranquila, controlada. Parks não grita, foca-se no detalhe, Street e Hart formam uma dupla coesa. O disco assume a forma de um manifesto de lirismo terno (evoca-se o fantasma de Bill Evans), mas nunca acende demasiado a chama.

 


Ralph Towner
“My Foolish Heart”
(ECM, 2017)

Com uma longuíssima e variada carreira, o veterano guitarrista Ralph Towner (n. 1940) já dificilmente poderia surpreender. Contudo, este novo disco acaba por ser uma inusitada e boa surpresa. Nas “liner notes” o guitarrista (e multi-instrumentista) confessa que se apaixonou pelo tema “My Foolish Heart” ao ouvir a versão do trio de Bill Evans com Scott LaFaro e Paulo Motion e que essa foi mesmo uma inspiração para o seu percurso pessoal na música. Em homenagem a essa inspiração, Towner regressa ao tema e interpreta o clássico a solo, a que se junta ainda um conjunto de onze temas originais. A sua revisão com guitarra clássica é reverencial, respeita todos os cantos da melodia deliciosa, mas não deixa de incluir o seu subtil toque pessoal.  Além desse standard, vale a pena prestar atenção aos originais, desde logo o tema que abre o disco, “Pilgrim”, delicadamente viciante. Todas as músicas revelam um apurado sentido de melodia, interpretados sem qualquer descuido. Com a sua guitarra dedilhada à volta de temas ternos e envolventes, Towner traz-nos um surpreendente disco suave. E belíssimo.