El Intruso: 13th Annual Critics Poll

Fui convidado a participar na votação anual do site El Intruso, que reúne as escolhas de mais de 67 críticos de jazz e música improvisada de diversos países.  Estas foram as minhas escolhas:  

Músico: Sara Serpa
Músico Revelación: Luísa Gonçalves 
Grupo: Kaja Draksler Octet
Grupo Revelación: Pedro Melo Alves’ In Igma
Álbum: Sara Serpa – Recognition (Biophilia Records)
Batería: Pedro Melo Alves
Contrabajo: Hugo Antunes
Guitarra: Jeff Parker
Piano: Kaja Draksler
Saxo Tenor: Ingrid Laubrock
Trompeta / Corneta: Susana Santos Silva
Vibráfono: Joel Ross
Cantante Femenina: Sara Serpa
Cantante Masculino: Theo Bleckmann
Sello Discográfico: Clean Feed Records 

Votações completas: elintruso.com

Bernardo Devlin apresenta novo disco

Autor de canções inclassificáveis, Bernardo Devlin é um músico com percurso rico, que vai desde os Osso Exótico até uma discografia a solo ímpar, além de inúmeras parcerias. Devlin acaba de editar um novo disco, Proxima b, que conta com diversos músicos convidados, como Ernesto Rodrigues, Helena Espvall ou Oliver Vogt. Numa pequena entrevista Bernardo Devlin apresenta este novo trabalho.

Este novo disco tem um título algo enigmático. Porquê este título,  Proxima b, o que significa?
Em primeiro lugar gostaria de referir que quando escolho um título procuro que funcione mais como uma pista ou uma referência e certamente prefiro que a interpretação seja deixada em aberto. Proxima b é um exoplaneta a muitos milhares de anos-luz da Terra. Salvo haver suspeitas quanto à sua possível habitabilidade pouco ou nada se sabe acerca dele. O álbum tem como subtítulo As duas antenas do caracol, o que implica por um lado lentidão e por outro vigilância.

Que ideias quiseste trazer para este disco?
Em continuidade com a resposta anterior, podemos pegar nos factos mais recentes da conquista do espaço como medida para o estado de evolução da espécie humana – algo que provavelmente deveria advir de um esforço progressista de união global e que, se ainda cá estivermos, será uma questão de necessidade para a sobrevivência da espécie. O pouco que tem vindo a acontecer nesse campo é mais movido por um desejo de capitalização ou mesmo privatização do espaço. Isso diz muito acerca do estado brutalmente primitivo em que nos encontramos. A ganância que isso implica, que diz muito acerca da conjuntura actual, e as consequências que se têm vindo a fazer sentir no nosso quotidiano estão no sentimento deste álbum. Mas não é ficção-científica. É só mais um ponto de vista quanto ao estado das coisas por aqui, e também quanto à lentidão do progresso da mentalidade humana em geral.

Neste disco trabalhas com um leque alargado de músicos, alguns deles participaram no teu disco Circa 1999 (9 Implosões), como o Ernesto Rodrigues e o Oliver Vogt. Como decorreu a selecção de músicos para este trabalho?
Como sempre. Essa selecção é feita de acordo com a natureza do projecto e prefiro recorrer a aqueles que conheço quer como músicos quer como pessoas. De resto, as coisas são definidas pelas disponibilidades de cada um.

Passaram oito anos desde o disco anterior, Sic Transit, editado em 2012. O que estiveste a fazer durante este tempo?
Tenho um outro projecto que se chama Chroma Key em vias de finalização, mas não sei dizer quando sairá. Estive envolvido em dois grupos, Capital “O” e Time Machine. Colaborei com os franceses Hifiklub, com o Vítor Rua e com o DWART. Em resumo, os oito anos de espaço entre os dois álbuns não reflectem em nada o meu ritmo de produtividade.

Há planos para apresentar esta música ao vivo?
Não, pela simples razão de não haver condições para o fazer.

Ao vivo: Mano a Mano @ Teatro Villaret, Lisboa 

Assinalando o lançamento do seu mais recente registo, O Disco de Natal, o duo Mano a Mano apresentou-se ao vivo no Teatro Villaret, em Lisboa, a 17 de dezembro. O projecto de André Santos e Bruno Santos, dois irmãos guitarristas madeirenses, chega ao quarto disco com um conjunto de canções de Natal interpretadas com duas guitarras, com arranjos originais jazzísticos.

Em plena época de pandemia o Villaret acolheu um espectáculo raro. André e Bruno Santos abriram o concerto com “I’ll be home for Christmas”, com as duas guitarras unidas, exibindo o método de trabalho da dupla. Guitarristas virtuosos, cada tem com a sua personalidade musical bem definida (ouça-se Caixa de Música de Bruno e Vitamina D de André, para perceber as diferenças), mas neste projecto os irmãos navegam para o mesmo lado: desdobram os temas, vão à raíz de cada composição e refazem-na sem abdicar do eixo melódico. As guitarras entrelaçam-se, o protagonismo é alternado.  

Seguiram-se temas como “This Christmas”, “Santa Claus Is Coming to Town” e “White Christmas”, este num solo de Bruno Santos, que continuou em “Jingle Bells”, já em duo. Além dos clássicos americanos, o duo foi buscar dois tradicionais madeirenses e acrescentou dois originais (destaque para o “Blues Para o Pai Natal” assinado por Bruno Santos). Para lá das guitarras, a dupla serviu-se ainda de cordofones tradicionais da Madeira (braguinha e rajão) e do banjo, em alguns dos temas. Pelo alinhamento – do concerto e do disco – passam ainda temas obrigatórios da época, como “Have Yourself a Merry Little Christmas”, “Silent Night” e “We Wish You a Merry Christmas”. No final o público aplaudiu, numa ovação entusiasmada.

O mundo precisava de mais um disco de Natal? Talvez não, mas música original nunca é demais, é sempre bem-vinda. A dulpa madeirense não se limita a reinterpretar clássicos, trata de dar novas roupagens a temas intemporais, acrescentado-lhes a sua personalidade musical. Esqueçamos o preconceito, deixemos de lado as dúvidas: a abordagem original da dupla justifica plenamente a existência deste disco. A todos um bom disco de Natal!

Pedro Melo Alves lança álbum a solo

O baterista e compositor Pedro Melo Alves lançou um novo álbum, Zero of Form. Melo Alves, que já tinha editado este ano o registo do projecto In Igma, via Clean Feed, apresenta agora um outro universo musical: um disco de bateria solo, numa aproximação solitária ao seu instrumento-raíz, a bateria. O baterista assume: “Enquanto consolidação do meu percurso enquanto instrumentista, este disco é um marco importante. Reúne as experiências ricas que tive no encontro com músicos preciosos, nos últimos anos.” Este disco é um verdadeiro resultado do confinamento pandémico, tendo sido gravado por Pedro Melo Alves no Porto, em Abril de 2020: “quando finalmente tive tempo para parar, reflectir sobre o material que tinha em mãos, explorá-lo, gravá-lo, filmá-lo e editá-lo”. O disco Zero of Form é uma edição de autor e pode ser ouvido e adquirido na página Bandcamp

Ao vivo: A Voice for Freedom @ Theatro Circo

O Theatro Circo, em Braga, acolheu no dia 11 de Dezembro o espectáculo A Voice for Freedom, protagonizado pela cantora Sara Miguel. O espectáculo nasceu de um convite que a Associação Angrajazz lançou à cantora, para assinalar o Dia Internacional do Jazz, e Sara Miguel criou um espectáculo de homenagem à lendária Nina Simone (1933-2003), particularmente focado na sua faceta activista.

Nascida no Porto e licenciada em Canto Jazz na ESMAE, Sara Miguel lançou em 2012 o seu disco de estreia, Monção, gravado em quarteto. Em 2014 mudou-se para os Açores, tendo vivido na Ilha Terceira e reside actualmente no Pico. Colaborou com a Orquestra Angrajazz, tendo actuado no festival de jazz de Angra do Heroísmo por diversas ocasiões. Em 2018 editou o disco de estreia do Bruma Project, onde propõe uma revisitação jazzística de temas açorianos, integra o trio Mar&Ilha (com Jorge “Canarinho” Silva e Marcos Fernandez) e o duo Blackbird, em parceria com o guitarrista João Belchior, que editou no início deste 2020 o seu EP de estreia (Becoming).

Perante uma plateia muito bem composta (tendo em conta as limitações da pandemia), a cantora fez-se acompanhar em Braga por um verdadeiro grupo all-star, reunindo alguns dos melhores músicos nacionais da cena jazz: João Mortágua (saxofone alto), Javier Pereiro (trompete), Gonçalo Moreira (piano), Michael Ross (contrabaixo) e Mário Costa (bateria). A música seria complementada com a projecção de imagens, da responsabilidade de Edmundo Díaz Sotelo e Eddie Oleque.

O espectáculo abriu com a interpretação de “To be young, gifted and black”, um dos temas mais conhecidos de Simone. A banda segura, a voz sólida. Desde logo, nota-se a evidente diferença nos registos vocais da homenageada e da homenagem – o que não é nenhum problema, porque isto não é um concurso de imitação, é um assumido tributo com personalidade. Após a entrada enérgica, o ritmo abranda com a abaladada “Lilac wine” (também popularizada por Jeff Buckley, que a levou a outros públicos). Segue-se “Be my husband” numa versão despida, apenas a voz a capella e palmas em fundo, na marcação do tempo. Com “Ain’t got no, I got life”, a banda volta com toda a pujança: contrabaixo e bateria na estabilidade rítmica, piano nas pinceladas harmónicas, e os sopros, saxofone e trompete, expressivos nos sublinhados melódicos.

A cantora contextualiza, dá informações sobre a vida de Nina Simone, sobre o seu envolvimento no movimento dos direitos civis, sobre o racismo. E no alinhamento seguem-se temas onde a mensagem é mais explícita. “Strange fruit” é um dos temas mais emblemáticos do seu cancioneiro, tendo sido também gravado por Billie Holiday, e aborda explicitamente o linchamento de negros. Além da qualidade vocal e do sentimento da canção, as imagens projectadas de homens negros mortos pendurados em árvores (“estranhos frutos”) amplificam a sensação de choque que já está presente na música. Seguem-se outros temas intensos: “Work song”, “Four women”, “Mississippi goddam” (outro momento mais marcante) e “Backlash blues”. Sempre em crescendo.

A interpretação vocal é irrepreensível, com Sara Miguel a assumir a sua personalidade musical cada vez mais à vontade, à medida que o espectáculo avança, brilhando particularmente nos momentos de mais energia. A banda exibe eficácia e, além do acompanhamento, sabe acrescentar qualidade nos momentos a solo – notáveis os solos de João Mortágua no saxofone e Javier Pereiro no trompete. Para o encerramento ficou reservada “I wish I knew how it would feel to be free”, que conquistou definitivamente o público, até cantou. A plateia despediu-se com uma ovação em pé, entusiasmada e merecida. A cantora e a banda regressaram para o encore, primeiro com “Everything must change” (apenas piano e voz) e a despedida final chegou com “Feeling Good” (nova ovação.)

Neste espectáculo a voz de Sara Miguel exibiu ao vivo a sua enorme qualidade e amplitude, adaptada à especificidade da homenagem. A riqueza e potencial vocal de Sara Miguel têm sido expostos em diferentes contextos, particularmente no seu projecto de originais Blackbird. Depois do sucesso desta homenagem, que merece ser levada a muitas mais cidades portuguesas, ficamos a aguardar novos projectos, que também não esqueçam a ligação ao jazz.

No final do espectáculo, entre o burburinho da saída, uma figura ligada à cena jazz confessava: “gostei muito, mas houve muito proselitismo…” Num espectáculo sobre a faceta activista da lendária cantora, numa época em que racismo está na ordem do dia, neste momento em que as sombras do fascismo se aproximam sem vergonha, a evangelização seria inevitável. Aliás, quando se trata de direitos humanos e igualdade, a evangelização nunca é demais. Quando a música se pode associar e ajudar a difundir a mensagem, ficamos todos a ganhar. Que aí venham mais vozes pela liberdade.

Luís Lopes actua a solo na ZDB

O guitarrista Luís Lopes vai apresentar-se ao vivo na Galeria ZDB, em Lisboa, num raro concerto a solo de guitarra acústica de cordas de nylon. O guitarrista apresenta assim a sua proposta, Emmentes:

Esta mostra de(sta) peça(s) que apresento, ou se apresentam, agora, são resultado desta quotidianidade de recolhimento. Quis emmentes edificar composição ou em grande parte arrumar ideias já trabalhadas anteriormente, gravadas até. Aproveito, então, para me entregar pela primeira vez à guitarra acústica de cordas de nylon, mais conhecida como guitarra clássica, depois de contacto superficial durante a adolescência, com reservas e/ou dúvidas se sou essa pessoa que por “ali” existia, se é que era, se sou, se não sou, ou se o ser existe, e se vale a pena. Evoco então ideias de composição, harmonização, recursos técnicos, e outras instituições, interiorizadas algures, por vezes complexo, por vezes simples, não tenho a certeza se assim é. Erro sem destino por caminhos próprios, sisma rumo ao Lugar perseguido, solidão eminente talvez. Alguma coisa por milagre ou simplesmente por um acaso fica. “O” contacto que me lembro! Tenho comigo, ataca-me, que sigo e seguirei sempre, independente da razão ou razões, um certo caminho que aponta talvez sensatamente para o “meu” caminho, “este meu” sonho ou simplesmente visões os flashes que ecoam de mim para mim ou para outros, enfim, a poesia desse fenómeno que é o que me fascina e obriga, em conformidade, claro, com o (mundo) que observo/sinto e/ou me restringe, pois a ‘verdade” é um todo, aprendi! Vulgarizando: uma só resposta perante qualquer acto ou fenómeno é uma afronta. Tudo é dificílimo e uma desgraça… E uma violência. Porém: Antes morrer do que violentar! Tudo deambulações lado a lado com o medo da não morte. E é isso que vai soar! Em suma: solo de composição escrita com guitarra acústica de cordas nylon.

O concerto terá lugar no dia 16 de Dezembro, quarta-feira, às 19h00, e a entrada custa 5€. Aqui fica uma amostra do que aí vem.

Livro: “Festa do Jazz”

Durante a 18ª edição da Festa do Jazz, que este ano se realizou no mês de Setembro, foi apresentado o livro Festa do Jazz. Este livro conta a história da Festa do Jazz e traça o perfil de alguns dos intervenientes da festa e do jazz português – inclui perfis de músicos como Susana Santos Silva, João Barradas, João Pedro Brandão, Ricardo Toscano, Sara Serpa, Pedro Melo Alves e João Mortágua. O livro conta com textos de José Dias (investigador e guitarrista) e Gonçalo Frota (jornalista do Público), além de um texto introdutório da autoria de Carlos Martins, presidente da Associação Sons da Lusofonia – a entidade que promove a Festa do Jazz. O livro conta ainda com ilustrações de Travassos, autor das capas dos discos da editora Clean Feed, que aqui assina também a belíssima ilustração da capa do livro.

João Almeida lança três novos discos

O jovem trompetista João Almeida acaba de lançar três novos discos em simultâneo. Depois da óptima estreia com Solo Sessions, Almeida publica agora duas novas gravações a solo (Static I e Static II) e uma gravação em trio, com Fred Lonberg-Holm (violoncelo) e João Lopes Pereira (bateria): Live at Zaratan. Trompetista da nova geração do jazz nacional, João Almeida tem colaborado em diversos grupos, entre a improvisação livre o jazz mais convencional. Os novos registos de João Almeida estão disponíveis para escuta na sua página Bandcamp.

Tiago Sousa apresenta novo disco no Lux 

O pianista Tiago Sousa vai apresentar o seu novo disco ao vivo no Lux Frágil, em Lisboa. O concerto terá lugar no dia 2 de dezembro, quarta-feira, às 19h00. Sousa levará na bagagem o material inédito de Oh Sweet Solitude, num concerto que resulta de uma parceria do Lux com o Teatro do Bairro Alto. Os bilhetes têm o preço de 12€ e já estão à venda. Tiago Sousa actuará depois a 13 de dezembro, às 11h, em Setúbal, na Casa da Cultura.

Sobre a “Balada para Sophie” de Filipe Melo

Façamos um desvio para fora da música. Não muito, porque aqui também há muita música e o Filipe Melo é pianista de jazz, além de realizador e autor de BD. O Filipe Melo publicou recentemente o livro Balada para Sophie (edição Tinta-da-China), um livro que é um acontecimento. Quando o livro Sabrina de Nick Drnaso, uma novela gráfica, foi selecionado para a shortlist do Man Booker 2018, foi reaberto o debate sobre se a banda desenhada deveria ser considerada literatura. Livros como esta Balada para Sophie mostram que sim, que é possível contar histórias com profundidade e densidade – como também o fazem Adrian Tomine, Jiro Taniguchi, Paco Roca, Marjane Satrapi, entre muitos outros. Balada para Sophie é belíssimo, do princípio ao fim: pela beleza da história, pelas várias camadas das personagens, pela música sempre presente (incluindo um bónus musical final). Até a dedicatória é bonita: o livro é dedicado a Beatriz Lebre, que foi assassinada, vítima de violência. Magnífico.