Jazz’Aqui leva jazz português a Berlim

Entre os dias 23 e 25 de Março realiza-se em Berlim a primeira edição do festival Jazz’Aqui. O festival terá lugar no clube de jazz Kunstfabrik Schlot e será o primeira edição de uma série de festivais que irão decorrer anualmente, sempre em diferentes países, com o objectivo de promover a internacionalização do jazz português. No dia 23 de Março, quinta-feira, actua o trio de Marco Santos, com Diogo Duque e João Frade. No dia seguinte, sexta 24, há dois concertos: Rui Faustino (solo de bateria) e sexteto Slow Is Possible. O festival fecha no dia 25, sábado, com mais dois concertos: o trio Cat In a Bag e o grupo de Mané Fernandes.

Informação completa no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/ultimas/80508-jazz39;aqui-leva-jazz-portugues-a-berlim/

Sobre o filme “La La Land”

Confesso que depois de tanta conversa esperava mais, mas o filme é giro, vê-se bem. O que me aborreceu foi aquele discurso do “jazz puro”, de que “o jazz está a morrer”, a ideia de que a fusão (pop/eléctrica) é uma coisa má, de que é preciso salvar o “jazz a sério”. Ora bem, a fusão do jazz já tem mais de quarenta anos, já faz parte da história do jazz. E o jazz sempre viveu de permanente evolução, o jazz é a música mais miscigenada e promíscua que existe. A conversa de que o jazz está a morrer vem desde sempre, desde que os Beatles começaram a dominar as tabelas de vendas, desde que morreu o Coltrane, desde que o Miles se meteu a brincar com a eletricidade, etc. Mas o jazz não morreu nem vai morrer tão cedo e dizer baboseiras deste tipo equivale a promover um ideal de jazz cristalizado nas imagens de bares fumarentos a preto e branco, equivale a ignorar e desvalorizar todo o jazz criativo que tem sido feito desde os anos 60, todo o jazz criativo que continua a ser feito hoje em dia. O jazz contemporâneo de 2017 tem por base a história, mas combina a improvisação com o rock, com a electrónica, com o groove, etc, etc. O jazz continua vivo na música actual de Kamasi Washington, dos Dawn of Midi, do RED trio, do João Hasselberg, do André Santos – só para citar alguns exemplos de música do nosso tempo (e alguns da nossa terra). Não temam, o jazz não está para morrer, amigos.

Discos: “Live at Zaal 100” + “In Layers” + “Salão Brazil”

Twenty One 4tet
“Live at Zaal 100”
(Clean Feed, 2016)

Govaert / Reis / Vicente / Martinsson
“In Layers”
(FMR, 2016)

Dikeman / Vicente / Antunes / Ferrandini
“Salão Brazil”
(No Business, 2016)

A cena improvisada portuguesa começa a dar nas vistas, particularmente a nível internacional – sim, a mais recente edição da revista Wire destaca a “Lisbon’s new jazz vanguard”, mas os ouvidos atentos sabem que não é de agora, já há muitos anos essa música incrível vem florescendo. E se os discos de Rodrigo Amado e do Motion Trio já são presença regular nas listas dos melhores do ano de publicações especializadas há algum tempo, outros músicos portugueses têm vindo a apostar na internacionalização, fomentando projectos com músicos estrangeiros, editando discos em parceria. O trompetista Luís Vicente tem vindo a realizar um trabalho exemplar e os três discos aqui reunidos – todos gravados em quarteto – são reflexo dessa intensa actividade.

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3124-live-at-zaal-100-in-layers-salao-brazil/

Entrevista: João Barradas


João Barradas [Fotografia: Márcia Lessa]

Acordeonista virtuoso, João Barradas começou a dar nas vistas muito jovem. Arrecadou prémios internacionais desde muito novo, criando desde logo uma enorme expectativa. Explorou diferentes géneros e encontrou no jazz o território ideal para trabalhar a sua visão musical, navegando à volta da improvisação. Vem trabalhando em múltiplos projectos – nacionais e internacionais – e prepara-se agora para editar o seu primeiro disco na condição de líder, publicado na reputada editora Inner Circle, com a participação do saxofonista Greg Osby. No momento em que lança o álbum “Directions”, o acordeonista, compositor e improvisador apresenta-se ao mundo.

Entrevista completa no site Jazz.pt:
http://jazz.pt/entrevista/2017/01/25/improvisar-com-sotaque/

A minha vida num disco

19 de Junho de 2003: Tinha acabado de chegar da praia e, num gesto instintivo, criei um blog onde iria começar a escrever sobre música. Não tinha pensado num título e, naquele momento, escolhi sem pensar muito: “A Forma do Jazz”. Na altura não se vivia a febre dos blogs, estavam a aparecer os primeiros, e comecei a escrever sobre jazz. Sem grande planeamento, criei o primeiro blog de jazz em Portugal. Foram surgindo alguns seguidores, comecei a ser convidado para escrever noutras publicações, esse momento marcou o início de um percurso profissional na escrita sobre música. Obviamente, a inspiração para o título desse blog foi o disco “The Shape of Jazz to Come”, de Ornette Coleman, que em 1959 anunciou ao mundo a revolução do jazz livre. Não só porque gostava muito daquela música, e pelo simbolismo daquele jazz libertário, mas também por causa da força daquele título.

Com seis discos editados num curto período de tempo, entre 1958 e 1960, o saxofonista Ornette Coleman desafiou o “status quo” da cena jazz, desafiando e quebrando convenções. Os seus discos já tinham títulos fortes, que transmitiam a sua mensagem de mudança na forma da música: “Something Else!!!!” (1958), “Tomorrow Is the Question!” (1959), “Change of the Century” (1959), “This Is Our Music” (1960) e “Free Jazz” (1960). Contudo, o título “The Shape of Jazz to Come” era ainda mais impactante: um prenúncio de futuro, mudança, evolução. Editado no ano de 1959, “The Shape of Jazz to Come” (ed. Atlantic) não só é um manifesto musical, como é uma pérola na discografia de Ornette. A acompanhar o seu saxofone alto está um grupo de excelentes músicos: Don Cherry (trompete), Charlie Haden (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria). Já essa formação era atípica, sem instrumento harmónico (piano ou guitarra), como era habitual.

O quarteto trabalha sobre uma ideia radical para a época: parte das composições de Coleman para depois improvisar livremente, com a dupla de sopros a trabalhar espontaneamente sobre uma base rítmica flexível, regressando à melodia apenas no final. Um som mais cru, também mais intenso. Mais do que caos, o que se ouve é uma enorme energia e uma beleza rara (“Beauty is a rare thing” é outro belo título de Ornette). Acima de tudo, destaca-se o tema de abertura: “Lonely Woman”, magnífica melodia original de Ornette que conseguiu atravessar meio século sem uma ruga, irresistível naquela entrada zizezagueante (sem dúvida, uma das músicas da minha vida). Há ainda a velocidade vertiginosa de “Eventually” e a melodia memorável de “Peace”. Outros temas magníficos completam o álbum: “Focus on Sanity”, “Congeniality” e “Chronology”. Tudo irrepreensível, desde a dinâmica dos sopros de Coleman e Cherry, até ao vibrante apoio da secção rítmica de Haden e Higgins.

Vi o Ornette Coleman ao vivo uma vez em Lisboa, quando veio tocar ao festival Jazz em Agosto em 2007. Com a ajuda de uma amiga da produção, tive a sorte de assistir ao “soundcheck”: o grande auditório da Gulbenkian fechado, só eu, técnicos de som e os músicos. Sentei-me lá no meio, quietinho, para não perturbar. Ornette soprou o saxofone alto e deixou-me arrepiado. Fiquei ali, sozinho, a ver durante alguns minutos um dos últimos gigantes da história do jazz, em absoluto exclusivo. À noite o concerto cumpriu as expectativas, Ornette até tocou a belíssima “Lonely Woman”. Ornette Coleman morreu em 2015. Não lhe cheguei a agradecer.

Texto publicado originalmente no site LookMag:
http://lookmag.pt/blog/minha-vida-num-disco-nuno-catarino/