Disco: “Roque”

Roque
“Roque”
(Ed. autor, 2016)

Roque é João Roque, guitarrista e compositor que com este disco homónimo se apresenta ao mundo. A acompanhar o líder guitarrista estão João Capinha (saxofone alto, saxofone soprano e clarinete baixo), Xico Santos (contrabaixo) e David Pires (bateria). O quarteto interpreta um conjunto de onze temas originais, saídos da pena de João Roque – a única excepção é uma improvisação do contrabaixista. O quarteto revela desde logo uma boa dinâmica, numa música fluída, com as composições (globalmente interessantes) a funcionarem como dínamo para a interpretação colectiva.

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3145-roque/

Disco: “Do You Have a Room?” de Gregor Vidic & Nicolas Field

Gregor Vidic & Nicolas Field
“Do You Have a Room?” 
(Ed. autor, 2016)

Saxofonista oriundo da Eslovénia, Gregor Vidic (n. 1984) é um saxofonista que actualmente a reside na Suíça. Com um som enérgico, o saxofonista tem distribuído os seus esforços por grupos como o quinteto Maria Libera ou a orquestra improvisadora Insub Meta Orchestra – fundada em 2010 por Cyril Bondi e d’incise. O inglês Nicolas Field (n. 1975) é um baterista já com percurso vasto. Tem colaborado com músicos como Jasper Stadhouders, Otomo Yoshihide e Akira Sakata, e vem sobretudo trabalhando música de cena (teatro e dança). Juntos, Vidic e Field têm desenvolvido um trabalho em duo, um áspero duelo de saxofone e bateria. Já atuaram ao vivo em Portugal (no Barreiro), integrando um “power-quarteto” onde se juntaram com o contrabaixista Hugo Antunes e o saxofonista catalão Albert Cirera. A dupla apresenta aqui no disco Do You Have a Room? a sua música, ao longo de quatro longos temas (média de doze minutos de duração).

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3143-do-you-have-a-room/

Livro: “Loft Jazz – Improvising New York in the 1970s”

O free jazz teve como principal espaço de desenvolvimento os “jazz lofts” de Nova Iorque. Com os espaços tradicionais (bares/clubes) a fecharem a programação a propostas mais exploratórias e inovadoras, começaram a surgir alternativas informais. Assim, antigos espaços industriais amplos (abandonados) em Manhattan, foram sendo transformados em áreas de criação cultural, especialmente focados no jazz criativo. No livro “Loft Jazz: Improvising New York in the 1970s”, Michael C. Heller analisa o fenómeno dos lofts, fazendo um retrato completo, combinado o contexto social e económico, além de todo o envolvimento musical. O texto do livro é desenvolvido de forma neutra, incluindo diversas perspectivas e visões, mas há uma linha que funciona de fonte principal, a perspectiva de Juma Sultan – activista e promotor de um dos lofts mais activos e representativos da cena, o Studio We.

Texto completo no site Bodypace:
http://bodyspace.net/etc/49-loft-jazz-improvising-new-york-in-the-1970s/

Jazz’Aqui leva jazz português a Berlim

Entre os dias 23 e 25 de Março realiza-se em Berlim a primeira edição do festival Jazz’Aqui. O festival terá lugar no clube de jazz Kunstfabrik Schlot e será o primeira edição de uma série de festivais que irão decorrer anualmente, sempre em diferentes países, com o objectivo de promover a internacionalização do jazz português. No dia 23 de Março, quinta-feira, actua o trio de Marco Santos, com Diogo Duque e João Frade. No dia seguinte, sexta 24, há dois concertos: Rui Faustino (solo de bateria) e sexteto Slow Is Possible. O festival fecha no dia 25, sábado, com mais dois concertos: o trio Cat In a Bag e o grupo de Mané Fernandes.

Informação completa no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/ultimas/80508-jazz39;aqui-leva-jazz-portugues-a-berlim/

Sobre o filme “La La Land”

Confesso que depois de tanta conversa esperava mais, mas o filme é giro, vê-se bem. O que me aborreceu foi aquele discurso do “jazz puro”, de que “o jazz está a morrer”, a ideia de que a fusão (pop/eléctrica) é uma coisa má, de que é preciso salvar o “jazz a sério”. Ora bem, a fusão do jazz já tem mais de quarenta anos, já faz parte da história do jazz. E o jazz sempre viveu de permanente evolução, o jazz é a música mais miscigenada e promíscua que existe. A conversa de que o jazz está a morrer vem desde sempre, desde que os Beatles começaram a dominar as tabelas de vendas, desde que morreu o Coltrane, desde que o Miles se meteu a brincar com a eletricidade, etc. Mas o jazz não morreu nem vai morrer tão cedo e dizer baboseiras deste tipo equivale a promover um ideal de jazz cristalizado nas imagens de bares fumarentos a preto e branco, equivale a ignorar e desvalorizar todo o jazz criativo que tem sido feito desde os anos 60, todo o jazz criativo que continua a ser feito hoje em dia. O jazz contemporâneo de 2017 tem por base a história, mas combina a improvisação com o rock, com a electrónica, com o groove, etc, etc. O jazz continua vivo na música actual de Kamasi Washington, dos Dawn of Midi, do RED trio, do João Hasselberg, do André Santos – só para citar alguns exemplos de música do nosso tempo (e alguns da nossa terra). Não temam, o jazz não está para morrer, amigos.

A minha vida num disco

19 de Junho de 2003: Tinha acabado de chegar da praia e, num gesto instintivo, criei um blog onde iria começar a escrever sobre música. Não tinha pensado num título e, naquele momento, escolhi sem pensar muito: “A Forma do Jazz”. Na altura não se vivia a febre dos blogs, estavam a aparecer os primeiros, e comecei a escrever sobre jazz. Sem grande planeamento, criei o primeiro blog de jazz em Portugal. Foram surgindo alguns seguidores, comecei a ser convidado para escrever noutras publicações, esse momento marcou o início de um percurso profissional na escrita sobre música. Obviamente, a inspiração para o título desse blog foi o disco “The Shape of Jazz to Come”, de Ornette Coleman, que em 1959 anunciou ao mundo a revolução do jazz livre. Não só porque gostava muito daquela música, e pelo simbolismo daquele jazz libertário, mas também por causa da força daquele título.

Com seis discos editados num curto período de tempo, entre 1958 e 1960, o saxofonista Ornette Coleman desafiou o “status quo” da cena jazz, desafiando e quebrando convenções. Os seus discos já tinham títulos fortes, que transmitiam a sua mensagem de mudança na forma da música: “Something Else!!!!” (1958), “Tomorrow Is the Question!” (1959), “Change of the Century” (1959), “This Is Our Music” (1960) e “Free Jazz” (1960). Contudo, o título “The Shape of Jazz to Come” era ainda mais impactante: um prenúncio de futuro, mudança, evolução. Editado no ano de 1959, “The Shape of Jazz to Come” (ed. Atlantic) não só é um manifesto musical, como é uma pérola na discografia de Ornette. A acompanhar o seu saxofone alto está um grupo de excelentes músicos: Don Cherry (trompete), Charlie Haden (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria). Já essa formação era atípica, sem instrumento harmónico (piano ou guitarra), como era habitual.

O quarteto trabalha sobre uma ideia radical para a época: parte das composições de Coleman para depois improvisar livremente, com a dupla de sopros a trabalhar espontaneamente sobre uma base rítmica flexível, regressando à melodia apenas no final. Um som mais cru, também mais intenso. Mais do que caos, o que se ouve é uma enorme energia e uma beleza rara (“Beauty is a rare thing” é outro belo título de Ornette). Acima de tudo, destaca-se o tema de abertura: “Lonely Woman”, magnífica melodia original de Ornette que conseguiu atravessar meio século sem uma ruga, irresistível naquela entrada zizezagueante (sem dúvida, uma das músicas da minha vida). Há ainda a velocidade vertiginosa de “Eventually” e a melodia memorável de “Peace”. Outros temas magníficos completam o álbum: “Focus on Sanity”, “Congeniality” e “Chronology”. Tudo irrepreensível, desde a dinâmica dos sopros de Coleman e Cherry, até ao vibrante apoio da secção rítmica de Haden e Higgins.

Vi o Ornette Coleman ao vivo uma vez em Lisboa, quando veio tocar ao festival Jazz em Agosto em 2007. Com a ajuda de uma amiga da produção, tive a sorte de assistir ao “soundcheck”: o grande auditório da Gulbenkian fechado, só eu, técnicos de som e os músicos. Sentei-me lá no meio, quietinho, para não perturbar. Ornette soprou o saxofone alto e deixou-me arrepiado. Fiquei ali, sozinho, a ver durante alguns minutos um dos últimos gigantes da história do jazz, em absoluto exclusivo. À noite o concerto cumpriu as expectativas, Ornette até tocou a belíssima “Lonely Woman”. Ornette Coleman morreu em 2015. Não lhe cheguei a agradecer.

Texto publicado originalmente no site LookMag:
http://lookmag.pt/blog/minha-vida-num-disco-nuno-catarino/