Ao Vivo: João Hasselberg & Pedro Branco

Pedro Branco [Fotografia: Rosa Castro ]

No final de Outubro do ano passado a dupla João Hasselberg e Pedro Branco apresentou ao mundo um belíssimo disco Dancing Our Way to Death. Nesse disco de estreia da parceria, uma edição de autor, eram apresentadas composições originais, interpretadas com elegância por dois músicos em topo de forma, apoiadas por um conjunto de convidados especiais. Poucos meses depois, é agora apresentada a sequela, From Order to Chaos, agora numa edição da reputada Clean Feed. A dupla assinalou o lançamento do novo disco com actuações na SMUP, na Parede, a 24 de Março e no Portalegre Jazzfest, no dia seguinte. O concerto na SMUP teve lugar no sótão, com os músicos colocados no centro do espaço, ficando rodeados pelo público a toda a volta. O espaço estava cheio, também com muita gente sentada no chão e outra tanta gente em pé, criando um ambiente acolhedor e intimista – também apoiado pela decoração cuidada e pela luz ténue.

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/ao-vivo/1758-joao-hasselberg-pedro-branco/

Aí está o Jazz em Agosto 2017

O Jazz em Agosto acaba de desvendar a programação e esta 34ª edição do festival, que decorre entre os dias 28 de julho e 6 de agosto, vai apresentar um total de 14 concertos. São vários os destaques da programação do festival da Gulbenkian: o projecto Sélébéyone de Steve Lehman (fusão jazz/hip-hop, na foto), o trio Sun of Goldfinger (David Torn, Tim Berne e Ches Smith), o regresso de Peter Brötzmann (duo com Heather Leigh), o super-grupo Human Feel (Chris Speed, Kurt Rosenwinkel, Jim Black e Andrew D’Angelo) e o quarteto High Risk de Dave Douglas.  A representação  nacional estará por  conta de Susana Santos Silva (com o quinteto Life and Other Transient Storms), EITR (duo de Pedro Sousa e Pedro Lopes) e Sudo Quartet (quarteto internacional que conta com Carlos Zíngaro).

Informação completa no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/ultimas/80697-ai-esta-o-jazz-em-agosto/

Disco: “Roque”

Roque
“Roque”
(Ed. autor, 2016)

Roque é João Roque, guitarrista e compositor que com este disco homónimo se apresenta ao mundo. A acompanhar o líder guitarrista estão João Capinha (saxofone alto, saxofone soprano e clarinete baixo), Xico Santos (contrabaixo) e David Pires (bateria). O quarteto interpreta um conjunto de onze temas originais, saídos da pena de João Roque – a única excepção é uma improvisação do contrabaixista. O quarteto revela desde logo uma boa dinâmica, numa música fluída, com as composições (globalmente interessantes) a funcionarem como dínamo para a interpretação colectiva.

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3145-roque/

Disco: “Do You Have a Room?” de Gregor Vidic & Nicolas Field

Gregor Vidic & Nicolas Field
“Do You Have a Room?” 
(Ed. autor, 2016)

Saxofonista oriundo da Eslovénia, Gregor Vidic (n. 1984) é um saxofonista que actualmente a reside na Suíça. Com um som enérgico, o saxofonista tem distribuído os seus esforços por grupos como o quinteto Maria Libera ou a orquestra improvisadora Insub Meta Orchestra – fundada em 2010 por Cyril Bondi e d’incise. O inglês Nicolas Field (n. 1975) é um baterista já com percurso vasto. Tem colaborado com músicos como Jasper Stadhouders, Otomo Yoshihide e Akira Sakata, e vem sobretudo trabalhando música de cena (teatro e dança). Juntos, Vidic e Field têm desenvolvido um trabalho em duo, um áspero duelo de saxofone e bateria. Já atuaram ao vivo em Portugal (no Barreiro), integrando um “power-quarteto” onde se juntaram com o contrabaixista Hugo Antunes e o saxofonista catalão Albert Cirera. A dupla apresenta aqui no disco Do You Have a Room? a sua música, ao longo de quatro longos temas (média de doze minutos de duração).

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3143-do-you-have-a-room/

Livro: “Loft Jazz – Improvising New York in the 1970s”

O free jazz teve como principal espaço de desenvolvimento os “jazz lofts” de Nova Iorque. Com os espaços tradicionais (bares/clubes) a fecharem a programação a propostas mais exploratórias e inovadoras, começaram a surgir alternativas informais. Assim, antigos espaços industriais amplos (abandonados) em Manhattan, foram sendo transformados em áreas de criação cultural, especialmente focados no jazz criativo. No livro “Loft Jazz: Improvising New York in the 1970s”, Michael C. Heller analisa o fenómeno dos lofts, fazendo um retrato completo, combinado o contexto social e económico, além de todo o envolvimento musical. O texto do livro é desenvolvido de forma neutra, incluindo diversas perspectivas e visões, mas há uma linha que funciona de fonte principal, a perspectiva de Juma Sultan – activista e promotor de um dos lofts mais activos e representativos da cena, o Studio We.

Texto completo no site Bodypace:
http://bodyspace.net/etc/49-loft-jazz-improvising-new-york-in-the-1970s/

Jazz’Aqui leva jazz português a Berlim

Entre os dias 23 e 25 de Março realiza-se em Berlim a primeira edição do festival Jazz’Aqui. O festival terá lugar no clube de jazz Kunstfabrik Schlot e será o primeira edição de uma série de festivais que irão decorrer anualmente, sempre em diferentes países, com o objectivo de promover a internacionalização do jazz português. No dia 23 de Março, quinta-feira, actua o trio de Marco Santos, com Diogo Duque e João Frade. No dia seguinte, sexta 24, há dois concertos: Rui Faustino (solo de bateria) e sexteto Slow Is Possible. O festival fecha no dia 25, sábado, com mais dois concertos: o trio Cat In a Bag e o grupo de Mané Fernandes.

Informação completa no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/ultimas/80508-jazz39;aqui-leva-jazz-portugues-a-berlim/

Sobre o filme “La La Land”

Confesso que depois de tanta conversa esperava mais, mas o filme é giro, vê-se bem. O que me aborreceu foi aquele discurso do “jazz puro”, de que “o jazz está a morrer”, a ideia de que a fusão (pop/eléctrica) é uma coisa má, de que é preciso salvar o “jazz a sério”. Ora bem, a fusão do jazz já tem mais de quarenta anos, já faz parte da história do jazz. E o jazz sempre viveu de permanente evolução, o jazz é a música mais miscigenada e promíscua que existe. A conversa de que o jazz está a morrer vem desde sempre, desde que os Beatles começaram a dominar as tabelas de vendas, desde que morreu o Coltrane, desde que o Miles se meteu a brincar com a eletricidade, etc. Mas o jazz não morreu nem vai morrer tão cedo e dizer baboseiras deste tipo equivale a promover um ideal de jazz cristalizado nas imagens de bares fumarentos a preto e branco, equivale a ignorar e desvalorizar todo o jazz criativo que tem sido feito desde os anos 60, todo o jazz criativo que continua a ser feito hoje em dia. O jazz contemporâneo de 2017 tem por base a história, mas combina a improvisação com o rock, com a electrónica, com o groove, etc, etc. O jazz continua vivo na música actual de Kamasi Washington, dos Dawn of Midi, do RED trio, do João Hasselberg, do André Santos – só para citar alguns exemplos de música do nosso tempo (e alguns da nossa terra). Não temam, o jazz não está para morrer, amigos.

A minha vida num disco

19 de Junho de 2003: Tinha acabado de chegar da praia e, num gesto instintivo, criei um blog onde iria começar a escrever sobre música. Não tinha pensado num título e, naquele momento, escolhi sem pensar muito: “A Forma do Jazz”. Na altura não se vivia a febre dos blogs, estavam a aparecer os primeiros, e comecei a escrever sobre jazz. Sem grande planeamento, criei o primeiro blog de jazz em Portugal. Foram surgindo alguns seguidores, comecei a ser convidado para escrever noutras publicações, esse momento marcou o início de um percurso profissional na escrita sobre música. Obviamente, a inspiração para o título desse blog foi o disco “The Shape of Jazz to Come”, de Ornette Coleman, que em 1959 anunciou ao mundo a revolução do jazz livre. Não só porque gostava muito daquela música, e pelo simbolismo daquele jazz libertário, mas também por causa da força daquele título.

Com seis discos editados num curto período de tempo, entre 1958 e 1960, o saxofonista Ornette Coleman desafiou o “status quo” da cena jazz, desafiando e quebrando convenções. Os seus discos já tinham títulos fortes, que transmitiam a sua mensagem de mudança na forma da música: “Something Else!!!!” (1958), “Tomorrow Is the Question!” (1959), “Change of the Century” (1959), “This Is Our Music” (1960) e “Free Jazz” (1960). Contudo, o título “The Shape of Jazz to Come” era ainda mais impactante: um prenúncio de futuro, mudança, evolução. Editado no ano de 1959, “The Shape of Jazz to Come” (ed. Atlantic) não só é um manifesto musical, como é uma pérola na discografia de Ornette. A acompanhar o seu saxofone alto está um grupo de excelentes músicos: Don Cherry (trompete), Charlie Haden (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria). Já essa formação era atípica, sem instrumento harmónico (piano ou guitarra), como era habitual.

O quarteto trabalha sobre uma ideia radical para a época: parte das composições de Coleman para depois improvisar livremente, com a dupla de sopros a trabalhar espontaneamente sobre uma base rítmica flexível, regressando à melodia apenas no final. Um som mais cru, também mais intenso. Mais do que caos, o que se ouve é uma enorme energia e uma beleza rara (“Beauty is a rare thing” é outro belo título de Ornette). Acima de tudo, destaca-se o tema de abertura: “Lonely Woman”, magnífica melodia original de Ornette que conseguiu atravessar meio século sem uma ruga, irresistível naquela entrada zizezagueante (sem dúvida, uma das músicas da minha vida). Há ainda a velocidade vertiginosa de “Eventually” e a melodia memorável de “Peace”. Outros temas magníficos completam o álbum: “Focus on Sanity”, “Congeniality” e “Chronology”. Tudo irrepreensível, desde a dinâmica dos sopros de Coleman e Cherry, até ao vibrante apoio da secção rítmica de Haden e Higgins.

Vi o Ornette Coleman ao vivo uma vez em Lisboa, quando veio tocar ao festival Jazz em Agosto em 2007. Com a ajuda de uma amiga da produção, tive a sorte de assistir ao “soundcheck”: o grande auditório da Gulbenkian fechado, só eu, técnicos de som e os músicos. Sentei-me lá no meio, quietinho, para não perturbar. Ornette soprou o saxofone alto e deixou-me arrepiado. Fiquei ali, sozinho, a ver durante alguns minutos um dos últimos gigantes da história do jazz, em absoluto exclusivo. À noite o concerto cumpriu as expectativas, Ornette até tocou a belíssima “Lonely Woman”. Ornette Coleman morreu em 2015. Não lhe cheguei a agradecer.

Texto publicado originalmente no site LookMag:
http://lookmag.pt/blog/minha-vida-num-disco-nuno-catarino/