Entrevista: Susana Santos Silva

[Fotografia: Márcia Lessa]

Natural do Porto, a trompetista Susana Santos Silva tem sido uma das grandes forças criativas do jazz português contemporâneo. Integrou a Orquestra Jazz de Matosinhos durante duas décadas, actuando e gravando com figuras como Lee Konitz, Carla Bley, Maria Schneider,  John Hollenbeck, Kurt Rosenwinkel e Joshua Redman, entre outros. Em 2011 editou o seu disco de estreia como líder, “Devil’s Dress”, e desde então vem alimentando uma discografia rica, na qual se avolumam parcerias com músicos internacionais. Em simultâneo, foi também fundadora e dinamizadora da Porta-Jazz, a associação responsável pela actual vitalidade do jazz no Porto. Mudou-se recentemente para a Suécia e vem tocando por toda a Europa, explorando a sua música aberta, entre o jazz e a improvisação.  Continue reading “Entrevista: Susana Santos Silva”

Entrevista: César Cardoso

[Fotografia: Márcia Lessa]

Saxofonista natural de Leiria, César Cardoso acaba de publicar o seu terceiro disco na condição de líder, “Interchange”, com a participação de Miguel Zenón. Os estudantes de jazz portugueses agradecem-lhe a publicação do manual em Português que faltava sobre a teoria do jazz. E é também responsável por outro empreendimento de grande fôlego, a Orquestra Jazz de Leiria. Entrevista na jazz.pt sobre tudo isso e mais… Continue reading “Entrevista: César Cardoso”

Memória: Entrevista a Anthony Braxton

Compositor e saxofonista, o americano Anthony Braxton é uma verdadeira lenda viva da história do jazz.  Herdeiro da “Great Black Music”, prefere classificar o seu próprio trabalho como “música criativa”. Numa conversa de fim de tarde no anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, Anthony Braxton revela-se.

Quem foram os primeiros músicos que o levaram a ser músico?

Os primeiros músicos que tiveram impacto sobre mim foram Miles Davis, Dave Brubeck e Paul Desmond. Mais tarde fui influenciado pela grande música de Lennie Tristano e Warne Marsh, John Coltrane, Jackie McLean também foi importante, a grande música de Albert Ayler – estive muito atraído pela sua música. Foram principalmente os saxofonistas que mais me influenciaram. Também os meus colegas de Chicago, da AACM, a grande música de Roscoe Mitchell e Joseph Jarman foram certamente influências marcantes.

Acabou de referir John Coltrane e Albert Ayler. Na altura em que começava a tocar, Ayler e Coltrane tinham acabado de desaparecer. Alguma vez sentiu que poderia ser o seu sucessor?

Nunca estive a pensar em termos de ser o sucessor de alguém, queria apenas tocar a minha música da melhor forma que conseguisse. Nessa altura eu fui muito influenciado por esses saxofonistas, mas fui também muito inspirado pela tradição da música escrita – a grande música de Arnold Schöenberg, a grande música de Iannis Xenakis, Karlheinz Stockhausen, John Cage. Pela altura em que eu tinha dezassete/dezoito anos eu já sabia o que queria fazer e não estava a pensar em termos de suceder a alguém, queria fazer o melhor que conseguisse. Continue reading “Memória: Entrevista a Anthony Braxton”

Memória: A guitarra saturnina de Mary Halvorson

[Fotografia: Nuno Martins]

A guitarrista Mary Halvorson já não será uma surpresa para ninguém. O álbum “Saturn Sings”, de composições aventureiras, foi a confirmação definitiva de um talento da guitarra que não vai deixar ninguém indiferente. Começou por tocar violino, mas cedo mudou para a guitarra eléctrica. Teria uns onze anos: “Aborrecia-me tocar em orquestras e nunca gostei muito do violino. Nessa altura comecei a ouvir coisas como Jimi Hendrix e The Allman Brothers e decidi que queria tocar guitarra”. A chegada ao jazz não foi intencional: “o professor de guitarra era músico de jazz, por isso aconteceu por acaso. Além disso, o meu pai tinha muitos discos de jazz em casa e eu comecei a ouvi-los e a ficar interessada.” Desses primeiros discos que lhe chamaram a atenção, a guitarrista refere clássicos: “Kind of Blue” de Miles Davis, “Blue Train” de John Coltrane e uma compilação de Thelonious Monk. Continue reading “Memória: A guitarra saturnina de Mary Halvorson”

Entrevista: Maria da Rocha

Nascida em 1984, Maria da Rocha é uma violinista e violetista com sólida formação clássica. Colaborou com várias orquestras e ensembles, incluindo a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra das Beiras e a Orquestra XXI, entre várias apresentações nacionais e internacionais. Em simultâneo, tem-se aproximado das músicas exploratórias, nas áreas da electroacústica e da improvisação, e em 2015 publicou o álbum “Pink”, em duo com Maria W. Horn, editado pela Creative Sources. Agora, apresenta o disco de estreia a solo, “Beetroot and Other Stories”, editado pela Shhpuma Records, onde revela uma outra faceta, com o violino acompanhado por electrónica. Antecipando a sua actuação no Festival Rescaldo, Maria da Rocha apresenta-se. Continue reading “Entrevista: Maria da Rocha”

Memória: “Schwarzwaldfahrt” de Brötzmann / Bennink

Este texto foi a minha primeira colaboração com a revista Jazz.pt. Fui convidado a colaborar na Jazz.pt pelo Pedro Costa, na altura o director da revista, e esta crítica foi publicada no seu número 6, edição de Maio/Junho de 2006.

Peter Brötzmann / Han Bennink
“Schwarzwaldfahrt
(FMP, 1977; reed. Atavistic, 2006)

No fim do Inverno, dois músicos resolvem passar alguns uns dias na Floresta Negra, numa zona perto de Donaueschingen. Carregados com pão, bacon da região, truta fumada e algumas garrafas de vinho, instalam-se numa velha casa de madeira. Durante o dia vão para a floresta fazer música, música que surge no meio do arvoredo, música livre, improvisada. Com eles levam saxofones, clarinetes e pouco mais – e utilizam tudo o que encontram pelo caminho como instrumento musical. A história aconteceu em 1977 e teve como personagens dois fundadores da livre improvisação europeia: Peter Brötzmann e Han Bennink. Editado originalmente pela FMP, “Schwarzwaldfahrt” reuniu uma selecção dos melhores momentos que o duo gravou durante aqueles dias. Agora, quase trinta anos volvidos sobre a aventura, o disco foi reeditado, com o bónus de incluir um segundo disco com material que ficou de fora da primeira edição. Se à partida a ideia que esteve por trás da aventura já gerava curiosidade, o duo tratou de não defraudar as expectativas. Brötzmann, que é geralmente considerado o mais fiel seguidor de Albert Ayler, pelo teor incendiário do seu sopro, tem aqui uma prestação relativamente calma, distante do tom abrasivo que lhe é habitual. Han Bennink aproveita todos os objectos para fazer percussão e arranca sonoridades surpreendentes. Quase sempre em concordância, utilizando uma panóplia de instrumentos por vezes impossíveis de identificar, os dois músicos constroem fragmentos de ritmos e melodias que se sustentam em diálogo permanente. Sem alinhar em tretas neo-hippies, esta é uma celebração da música e da natureza, da música que nasce na floresta, nas árvores, na água. Pela dimensão que representa, como manifesto de música improvisada, este álbum é poesia natural.

Jazz.pt: Melhores de 2017

Melhores Discos Internacionais
Vijay Iyer Sextet: “Far From Over” (ECM)
The Thing & James Blood Ulmer: “Baby Talk” (Trost)
Kamasi Washington: “Harmony of Difference” (Young Turks)
Cortex: “Avant-Garde Party Music” (Clean Feed)
Ambrose Akinmusire: “A Rift in Decorum” (Blue Note)
Matt Mitchell: “A Pouting Grimace” (Pi)
Eve Risser / Kaja Draksler: “To Pianos” (Clean Feed)
Maciej Obara Quartet: “Unloved” (ECM)
Colin Stetson: “All This I Do For Glory” (52Hz)
Ralph Towner: “My Foolish Heart” (ECM)
Tyshawn Sorey: “Verisimilitude” (Pi Recordings)
Jaimie Branch: “Fly or Die” (International Anthem)
DeJohnette / Grenadier / Medeski / Scofield: “Hudson” (Motema)
Rob Mazurek: “Chants and Corners” (Clean Feed)
Charles Lloyd New Quartet: “Passin’ Thru” (Blue Note)
Aki Takase / David Murray: “Cherry Sakura” (Intakt)
Craig Taborn: “Daylight Ghosts” (ECM)
Nicole Mitchell: “Mandorla Awakening II” (FPE)
Peter Brötzmann / Heather Leigh: “Sex Tape” (Trost)
Anouar Brahem: “Blue Maqams” (ECM)  Continue reading “Jazz.pt: Melhores de 2017”

Entrevista: Luís Figueiredo


[Fotografia: Márcia Lessa]

O pianista e compositor Luís Figueiredo começou por se afirmar na cena jazz nacional com aedição de dois discos de originais: “Manhã” (2010) e “Lado B” (2012). Com o contrabaixista João Hasselberg trabalha o duo Songbird, fazendo revisões instrumentais de canções populares, e colabora com os cantores Nuno Dias (“Canções Pagãs”), Sofia Vitória e Cristina Branco. Tem desenvolvido um sólido trabalho como produtor e arranjador e foi responsável pelos discos de Luísa Sobral e Ana Bacalhau. É dele o arranjo da canção “Amar pelos Dois”, o emotivo tema que venceu surpreendentemente a Eurovisão. Agora o pianista está focado na sua própria música e prepara-se para editar o novo disco “Kronos / Penélope”, um ambicioso álbum duplo onde apresenta composições originais ao leme de um grupo alargado. Numa conversa sem pressa, o pianista de Coimbra fala sobre o seu percurso, os arranjos, a Eurovisão e o novo disco.

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Ao Vivo: Angrajazz 2017


Yilian Cañizares [Fotografia: Jorge Monjardino]

Chegado à sua 19ª edição, o festival da Ilha Terceira manteve a habitual coerência na programação, apresentando uma linha programática focada num jazz “mainstream”, sem esquecer propostas mais arrojadas, mas acessíveis. A edição de 2017 do Angrajazz, que decorreu entre os dias 4 e 7 de Outubro no Centro Cultural e de Congressos, seguiu a tradição da sua linha estética, não faltando a habitual presença de um/a cantor/a e, num gesto de diferença, apresentando duas propostas mais próximas da música latina. Este ano o evento arrancou mais cedo, a 29 de Setembro, com o ciclo de concertos “Jazz na Rua” a antecipar as quatro noites do programa oficial. Foram três os projectos musicais que actuaram em diversos locais da cidade de Angra do Heroísmo, levando propostas de jazz a locais populares, com entrada livre. Nesta iniciativa participaram o duo Mano a Mano, dos irmãos André e Bruno Santos, e dois projectos de músicos que integram a Orquestra Angrajazz: Wave Jazz Ensemble e Sara Miguel Quarteto. Continue reading “Ao Vivo: Angrajazz 2017”

Entrevista: Gonçalo Prazeres


Gonçalo Prazeres [Fotografia: Catarina Hébil]

Saxofonista multifacetado, Gonçalo Prazeres estudou no Berklee College of Music (Boston) e na Escola Superior de Música de Lisboa. É um dos vértices do trio TRiSoNTe, grupo que mantém com Ricardo Barriga e Luís Candeias, que se prepara para editar um segundo disco. Estreou-se como líder e compositor com “Depois de Alguma Coisa” (2010) e recentemente editou “Snapshot” (2016), liderando um verdadeiro grupo “all star”: Albert Cirera (saxofone tenor), Nuno Costa (guitarra eléctrica), João Hasselberg (contrabaixo) e Rui Pereira (bateria). Antecipando o concerto que tem agendado para o Centro Cultural de Belém, a 9 de Setembro, Prazeres apresenta-se.

Entrevista completa no site Jazz.pt:
https://jazz.pt/entrevista/2017/08/28/bicho-de-sete-cabecas/