Rafael Toral: odisseia no espaço

[Fotografia: Vera Marmelo]

Rafael Toral acaba de editar um novo disco, Space Quartet, gravado com Hugo Antunes, João Pais Filipe e Ricardo Webbens (edição Clean Feed). Em paralelo, a editora Drag City, de Chicago, acaba de reeditar em vinil dois discos que já se tornaram clássicos da música ambiental: Sound Mind Sound Body (de 1994) e Wave Field (de 1995). No momento em que assistimos a estas edições, Toral concede uma entrevista exclusiva: faz uma retrospectiva sobre o seu Space Program, apresenta o novo trabalho em quarteto e fala sobre as reedições.

Podes contextualizar, explicar o percurso e as etapas do Space Program?
Quando saí do período de transição (entre 2002 e 2004) em que defini como iria funcionar a nova abordagem musical, tracei todo o plano de uma vez. Assumi um compromisso com um mapa de acção. Comecei por lançar Space, que serviu como enunciar de intenções e apresentação de matérias, sob a forma de uma orquestra electrónica em que eu toquei todos os instrumentos (excepto a participação de Sei Miguel e Fala Mariam). Depois duas séries de discos, uma de gravações a solo (Space Solo 1 e 2) e outra de composições minuciosas com colaboradores próximos como César Burago, Riccardo Dillon Wanke ou Manuel Mota, e convidados, como David Toop, Tatsuya Nakatani ou Evan Parker. Desta série resultaram os álbuns Space Elements I, II III. Ao vivo, estabeleci uma série de mapas de exploração de possibilidades em fraseado para cada instrumento a que chamei Space Studies, acho que foram oito. Mais tarde, comecei a dirigir formações cujo número indicava de quantas pessoas se compunha — o Space Collective, cuja aparição mais recente produziu o Moon Field. Estas formações tocavam num regime mais ou menos aberto quanto ao conteúdo das partes individuais mas estas eram cronometradas e aplicadas segundo uma partitura. Daí deu-se o salto para o Space Quartet, que opera de modo semelhante quanto aos materiais, mas cujas partes já são decididas autonomamente pelos músicos, sem partitura e sem sincronismo. No plano pedagógico, tenho oferecido o Space Program Workshop, dirigido a músicos de electrónica na óptica do hacking ou circuit bending, que trata não da tecnologia mas do que fazer com ela. Um trabalho sobre escuta, articulação e estruturação de discurso musical. Hoje, o programa discográfico está completo e encerrado, mas o trabalho que continuo a desenvolver cresce a partir do que fiz nestes últimos 15 anos.

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Headlights edita dois novos discos

A editora Headlights, de Manuel Mota, acaba de editar dois discos novos, de Margarida Garcia e Takashi Masubuchi. A portuguesa Margarida Garcia apresenta “Der Bau”, disco a solo de baixo elétrico,  gravado em Lisboa em Outubro do ano passado. O japonês Takashi Masubuchi apresenta o disco “R,R,R”, álbum solo de guitarra acústica, gravado emTóquio em Março de 2017. Ambos os discos  são edições limitadas de 200 unidades e estão disponíveis para encomenda através do site da editora.

Novo disco de MOVE String Quartet com Carlos Bica

O grupo MOVE String Quartet acaba de editar um novo disco e conta com a participação do contrabaixista português Carlos Bica. Este quarteto de cordas é liderado pela violoncelista Susanne Paul e, além de Bica, junta Gerður Gunnarsdóttir (violino) e Marie-Theres Hartel (viola). O disco “Short Stories” (edição Jazz Haus Musik) apresenta uma curiosa mescla de música de câmara com improvisação. O disco inclui um total de dez temas, a maior parte composições originais de Paul, e fecha com uma revisão do belíssimo “Believer” de Bica.

Barre Phillips no Museu do Chiado

As Noites de Verão, organizadas pela produtora Filho Único, vão voltar a animar os finais de tarde das sextas lisboetas. O ciclo apresenta uma série de concertos em dois espaços da cidade de Lisboa: no Jardim dos Coruchéus em Julho e no Museu do Chiado em Agosto. Um dos destaques do programa é o contrabaixista americano Barre Philips, que se vai apresentar num concerto a solo no Museu do Chiado.  O veterano improvisador apresenta-se ao vivo no encerramento do ciclo, no dia 24 de Agosto. O ciclo promove ainda concertos de Norberto Lobo (apresentação de “Estrela” em trio, 6 de Julho nos Coruchéus) e Rafael Toral (revisitação de “Wave Field”, 10 de Agosto no Chiado), entre outros. Todos os concertos das Noites de Verão têm entrada livre.

“Paixão e folia para São João” no Maria Matos: os convidados

Joana Sá e Luís José Martins [Fotografia: Laís Pereira]

O Teatro Maria Matos apresenta no dia 24 de Junho, Dia de São João, os últimos concertos da temporada. Joana Sá e Luís José Martins apresentam o espectáculo “Paixão e folia para São João” em duas sessões, às 18h e às 21h, e serão acompanhados por um grupo de músicos convidados, onde se destaca a cantora grega Savina Yannatou. Aqui fica, em primeira mão, a lista completa de convidados deste espectáculo.

Piano: Joana Sá
Guitarra Clássica: Luís José Martins
Realejo, sanfona, sopros e percussões: Carlos Guerreiro
Harpa & electrónica: Eduardo Raon
Voz de quem clama no deserto: Nuno Moura
Percussão: Pedro Carneiro
Voz: Savina Yannatou
Contrabaixo: André Ferreira (10 anos)
Sopro e vento do deserto: Carlota Tavares (10 anos)
Alaúde: Matias Neves (10 anos)

Folha de Sala: “Músicas tribais”

A convite do festival de cinema Porto/Post/Doc escrevi a folha de sala “Músicas tribais” sobre os filmes “Barulho, Eclipse” e “Nyo Vweta Nafta”, de Ico Costa.

“Sob o pseudónimo Dirty Beaches, Alex Zhang Hungtai editou entre 2007 e 2014 vários discos, com destaque para o excelente disco “Badlands” e os singles “True Blue” e “Lord Knows Best”.  Zhang Hungtai já havia mostrado vontade de explorar diferentes mundos sonoros quando apresentou o espectáculo “Landscapes in the Mist” no Teatro Maria Matos (Abril de 2014), tendo na altura tocado apenas saxofone tenor e guitarra eléctrica. Sem ligação prévia ao trabalho de Alex Zhang Hungtai, os portugueses David Maranha e Gabriel Ferrandini vêm desenvolvendo percursos sólidos entre a música experimental e a improvisada, trabalhando também em duo – editaram um LP “A Fonte de Aretusa” (Mazagran, 2011). Maranha e Ferrandini juntaram-se a Zhang Hungtai num trio, a partir de um convite da editora Blue Note para a criação de um filme para a Blogotèque, homenageando John Coltrane. Após essa primeira colaboração o trio resolveu continuar com a parceria, editando o disco “Âncora” (Grain of Sound, 2016). Num passo em frente da parceria, o trio juntou-se com mais dois músicos nacionais: Pedro Sousa (saxofonista) e Júlia Reis (baterista das Pega Monstro). O quinteto recém-formado estreou-se com um concerto na Galeria ZDB, assumindo a designação “Rahu”: quinteto à volta de percussão, desenvolvendo um trepidante ritmo tribal em crescendo, onde se junta o saxofone de Sousa a cuspir labaredas. O filme de Ico Costa documenta esse concerto, numa austera fotografia a preto e branco com grão, mostrando a música a evoluir lentamente, numa espécie de mantra, num processo de desenvolvimento crescente, até rebentar. E o detalhe dos rostos dos músicos, e as suas expressões particulares, reflectem a imensa energia dessa música. (…)”

portopostdoc.com

3 discos? A escolha de Fabricio Vieira

Fabricio Vieira, jornalista brasileiro, é editor do site Free Form, Free Jazz, página dedicada à música improvisada, criada em 2009. Escreveu sobre jazz para a Folha de S. Paulo e foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz e é autor de liner notes para discos de Roscoe Mitchell e Ivo Perelman.

“Selecionar três discos no universo jazzístico parece tarefa impossível. O que escolher? Para aliviar a sensação de estar cometendo injustiça com esse ou aquele músico, tentei buscar algum critério para tal seleção. Tendo em foco a seara free jazzística, destaquei três álbuns que são fundamentais para mim, como ouvinte, mas que também representam momentos maiores dessa música, englobando diferentes períodos e gerações.”


The Peter Brötzmann Octet – “Machine Gun”

(Brö, 1968)

“O saxofonista alemão Peter Brötzmann tinha apenas 27 anos quando entrou em estúdio com seu octeto para gestar esta obra-prima. Marco dos tempos iniciais do free jazz europeu, Machine Gun é um álbum que não perdeu intensidade, sendo indiscutivelmente atual mesmo passados exatos 50 anos desde sua criação. O grupo comandado por Brötzmann, formado por músicos de Holanda, Bélgica, Suécia e Inglaterra, trazia alguns dos que estariam entre os mais destacados instrumentistas do free vindo da Europa: os saxofonistas Evan Parker e Willem Breuker; os bateristas Han Bennink e Sven-Ake Johansson; os baixistas Peter Kowald e Buschi Niebergall; e o pianista Fred Van Hove – que time! O disco original traz apenas três peças, “Responsible”, “Music for Han Bennink” e a faixa-título, um dos temas mais marcantes do free jazz.”

 

 
David S. Ware Quartet – “Godspelized”

(DIW, 1996)

“O saxofonista David S. Ware (1949-2012) é um dos nomes centrais da minha discoteca, um músico que considero especialmente importante, tanto como improvisador quanto como compositor. Para mim, sua obra representa um dos pontos mais elevados da música free jazzística, notadamente pelo que desenvolveu durante a década de 1990. E este “Godspelized” traz alguns dos momentos mais iluminados de seu fantástico quarteto, que contava com nada menos que William Parker (baixo), Matthew Shipp (piano) e Susie Ibarra (bateria). Ouvir a música de Ware é sempre uma experiência única.”

 


Peter Evans – “Zebulon”

(More is More, 2013)

“Em um período de grande ebulição inventiva no trompete, Peter Evans surge como o mais incrível nome do instrumento hoje. Músico jovem, que iniciou sua carreira no século XXI, Evans tem tocado diferentes projetos de grande repercussão, com instigante variedade estética, a destacar seu Quintet e as criações para trompete solo. Neste grupo formado ao lado de John Hébert (baixo) e Kassa Overall (bateria), Evans mostra como revitalizar o free jazz por meio de um trio acústico, exibindo intensa e elevada criatividade em quatro temas irresistíveis.”

Jazz im Goethe-Garten: programa completo

Gorilla Mask

Já sabíamos as datas, agora conhecemos também o programa. A 14.ª edição do Jazz im Goethe-Garten realiza-se entre os dias 3 a 13 de Julho de 2018 e vai apresentar projectos que reflectem a vanguarda do jazz europeu, num total de seis concertos. Pelo jardim do Goethe vão passar Almeida/Amado/Franco, Chaosophy, Gabriele Mitelli O.N.G., Trio Heinz Herbet, Also (Katharina Ernst & Martin Siewert) e Gorilla Mask. Os concertos são sempre às 19h00 e a programação, como sempre, é da responsabilidade de Rui Neves. Aqui fica o programa completo.

3 Jul: Almeida/Amado/Franco (PT)
4 Jul: Chaosophy (ES)
5 Jul: Gabriele Mitelli O.N.G. (IT)
6 Jul: Trio Heinz Herbet (CH)
12 Jul: Also (AT)
13 Jul: Gorilla Mask (DE)

A Favola da Medusa apresenta-se

A Favola da Medusa é um projecto original que combina música improvisada e poesia. Nasceu em 2010, com Miguel Martins e Filipe Homem Fonseca (também argumentista), e vem desenvolvendo colaborações com vários músicos, nacionais e internacionais. Na próxima segunda-feira, 21 de Maio, a Favola regressa aos concertos nos Poetas do Povo (bar O Povo, no Cais do Sodré, em Lisboa).  Antecipando essa actuação, e com um humor desafiante, aqui fica uma pequena conversa sobre o percurso do projecto.

Como surgiu o projecto A Favola da Medusa?
Miguel Martins: Foi numa bonita noite do Outono de 2010, fruto da generosidade que nos caracteriza, a mim e ao Filipe Homem Fonseca, a qual nos impeliu a mostrar ao mundo qual o futuro desta forma de arte, caso queira permanecer no plano alcançado por músicos como Bach ou Mozart, mas à medida dos tempos vindouros.

Podes indicar quais são as vossas influências e referências musicais?
MM: Mais do que tudo, um agrupamento do Ontário chamado Nihilist Spasm Band. Enquanto pianista, citaria o Jon Benjamin, que é um prodígio de técnica, embora toque com uma gente muito pouco aconselhável. Algum Kagel, mais conceptual. O Nam June Paik. Toda a música que parta do entendimento de que o que menos interessa é o som.

Porque escolheram este nome curioso, A Favola da Medusa?
MM: Na verdade, não se tratou de uma escolha mas, antes, de uma revelação. Estava o Filipe a pastar as suas ovelhinhas na Cova da Iria quando viu uma luz muito intensa…

Têm colaborado com vários músicos convidados, já editaram um disco. Podes apresentar a vossa história e percurso?
MM: Sim, já passaram algumas dezenas de músicos pela Favola. Permito-me destacar a Ana Isabel Dias, harpista que toca com várias orquestras e que integrou os Madredeus, o George Haslam, um dos maiores saxofonistas barítonos da história do jazz, a Beverley Chadwick, saxofonista do Robert Wyatt, a Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada, o Alberto Velho Nogueira, porventura o maior prosador do mundo e de sempre e um baterista notável, o Eduardo Madeira, o segundo maior pianista da Pátria, a seguir a mim, o John Mateer, poeta australiano, a cravista Joana Bagulho, a cantora Mariana Abrunheiro, que gravou, por exemplo, com o Jaques Morelenbaum, o percussionista Pedro Castello-Lopes, o saxofonista Abdul Moimême, o violetista João Camões, ou a cantora francesa Swala Emati. A lista é enorme. E, sim, em 2015, editámos o CD “Dada Dandy”, na inglesa SLAM, onde gravaram também, por exemplo, o Mal Waldron e o Max Roach, para além de quase todos os grandes nomes do free britânico. Agora, damos este concerto no Povo, em que contamos com a trompete da Ana Roque, uma rapariga que trata o falecido Lester Bowie por Bambi, e já temos outro marcado, no Irreal, a 4 de Julho, com o Alejandro Crawford, que é videasta, por exemplo, dos MGMT, dos Tame Impala e dos Childish Gambino.

Como definem o vosso som e as vossas actuações?
MM: Indefiníveis, algures entre o bucólico e a chinfrineira. Mas sempre demonstrativos de uma genialidade ímpar. Com a modéstia que me caracteriza, diria que são a banda-sonora do Céu, do Purgatório e do Inferno.

Neste próximo concerto nos Poetas do Povo vão contar com a participação da Ana Roque no trompete, que é uma estreia. O que podemos esperar desta actuação?
Ana Roque: Como em tudo na vida, há que esperar o melhor e estar preparado para o pior.

Quais são os planos para os próximos tempos? Futuras colaborações, disco novo, concertos…?
MM: Isso tudo e muito mais. O objectivo é a absoluta hegemonia. Só nos calaremos quando mais ninguém tocar.

Splatter em tour nacional

O projecto Splatter, do inglềs Noel Taylor, vai apresentar-se ao vivo em Portugal com seis espectáculos. O clarinetista inglês vai contar com a companhia de dois músicos portugueses – o baterista Pedro Melo Alves e o guitarrista Luís José Martins –  formando um trio que será a formação base para estes concertos. A estes juntam-se os saxofonistas Anna Kaluza (concerto na SMUP), Alex Baczkowski (concertos no MIA e no Banco) e Yedo Gibson (concerto no Cantinho da Tuna). Aqui fica a agenda completa.

25 Maio: SMUP (Parede)
27 Maio: Festival MIA (Atouguia da Baleia)
28 Maio: Pequena Notável (Lisboa)
30 Maio Banco (Lisboa)
31 Maio: Salão Brazil (Coimbra)
1 Junho: Cantinho da Tuna (Sintra)