Disco: “An End As a New Beginning” de Home

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“An End As a New Beginning”
(Inner Circle / Nischo, 2017)

Com o seu disco de estreia, “Directions” o acordeonista João Barradas confirmou-se, mais do que um extraordinário virtuoso, como compositor sólido e, sobretudo, como músico completo, com impecável bom gosto. Esse álbum, um portentoso monumento de jazz mainstream, bateu com uma força enorme num raro momento para o jazz português. Poucos meses depois dessa notável estreia, Barradas apresentou um projecto alternativo, onde se lança para um jazz contemporâneo mais aberto e eléctrico.

Para este grupo o acordeonista, líder e compositor reuniu um grupo de jovens músicos (todos com idades próximas da sua) que exibem a alta qualidade técnica da mais jovem geração do jazz nacional. Sem olhar a geografias, juntou músicos do norte e do sul, numa espécie de “all-star” júnior: Mané Fernandes (guitarra eléctrica), Gonçalo Neto (guitarra eléctrica), Eduardo Cardinho (vibrafone), Ricardo Marques (baixo eléctrico) e Guilherme Melo (bateria).

Instrumentalmente, neste projecto Barradas livra-se do tradicional acordeão clássico, servindo-se exclusivamente do acordeão Midi, instrumento que já havia usado pontualmente no disco anterior. Trabalhando sons aproximados a teclados eléctricos, por vezes soa a um piano eléctrico, outras vezes está mais próximo de um sintetizador. (…)

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3269-an-end-as-a-new-beginning/

Disco: “In Search of the Emerging Species” de Big Bold Back Bone

Big Bold Back Bone 
“In Search of the Emerging Species”
(Shhpuma, 2017)

O quarteto Big Bold Back Bone resulta de uma parceria luso-suíça, juntando dois músicos suíços e dois portugueses (Luís Lopes e Travassos). Os suíços Marco Von Orelli (trompete) e Sheldon Suter (bateria) consistem no duo Lost Socks, grupo que trabalha a improvisação a partir de uma matriz de origem jazzística. Do lado português, o versátil guitarrista Luís Lopes vem alimentando um percurso cada vez mais rico e, entre outros, lidera os grupos Humanization Quartet (com Rodrigo Amado), Lisboa-Berlin Trio, Afterfall, trio com Adam Lane e Igal Foni, duo com Fred Lonberg-Holm, além de um registos a solo (“Noise Solo at ZDB” e “Love Song”). E Travassos é, além de reconhecido designer (atenção ao livro “Life is a simple mess”), um criativo manipulador de electrónica analógica, num percurso musical que tem atravessado múltiplos projectos: FLU, Pinkdraft, Les Voisins, One Eye Project e Pão – com Tiago Sousa e Pedro Sousa, que terá sido um dos mais originais projectos nacionais dos últimos anos. (…)

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3262-in-search-of-the-emerging-species/

Disco: “Moonwatchers” de Slow Is Possible

Slow Is Possible
“Moonwatchers”
(Clean Feed, 2017)

Por esta altura os Slow Is Possible (SIP) já não serão uma completa surpresa, como aconteceu quando apresentaram o seu primeiro disco, editado pela coimbrã JACC Records. Contudo, não deixa de ser surpreendente esta original mescla de referências musicais, que entrecruza elementos de jazz, pós-rock e música de câmara, numa música que acaba por soar cinematográfica.

Os SIP são uma formação original que junta seis excelentes instrumentistas nacionais: Bruno Figueira (saxofone alto), João Clemente (guitarra elétrica e eletrónica), Nuno Santos Dias (piano), André Pontífice (violoncelo), Ricardo Sousa (contrabaixo) e Duarte Fonseca (bateria). Com uma configuração instrumental pouco habitual, o sexteto trabalha composições bem estruturadas, que convocam toda a panóplia instrumental, num inteligente trabalho de orquestração. (…)

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3258-moonwatchers/

Memória: “Schwarzwaldfahrt” de Brötzmann / Bennink

Este texto foi a minha primeira colaboração com a revista Jazz.pt. Fui convidado a colaborar na Jazz.pt pelo Pedro Costa, na altura o director da revista, e esta crítica foi publicada no seu número 6, edição de Maio/Junho de 2006.

Peter Brötzmann / Han Bennink
“Schwarzwaldfahrt
(FMP, 1977; reed. Atavistic, 2006)

No fim do Inverno, dois músicos resolvem passar alguns uns dias na Floresta Negra, numa zona perto de Donaueschingen. Carregados com pão, bacon da região, truta fumada e algumas garrafas de vinho, instalam-se numa velha casa de madeira. Durante o dia vão para a floresta fazer música, música que surge no meio do arvoredo, música livre, improvisada. Com eles levam saxofones, clarinetes e pouco mais – e utilizam tudo o que encontram pelo caminho como instrumento musical. A história aconteceu em 1977 e teve como personagens dois fundadores da livre improvisação europeia: Peter Brötzmann e Han Bennink. Editado originalmente pela FMP, “Schwarzwaldfahrt” reuniu uma selecção dos melhores momentos que o duo gravou durante aqueles dias. Agora, quase trinta anos volvidos sobre a aventura, o disco foi reeditado, com o bónus de incluir um segundo disco com material que ficou de fora da primeira edição. Se à partida a ideia que esteve por trás da aventura já gerava curiosidade, o duo tratou de não defraudar as expectativas. Brötzmann, que é geralmente considerado o mais fiel seguidor de Albert Ayler, pelo teor incendiário do seu sopro, tem aqui uma prestação relativamente calma, distante do tom abrasivo que lhe é habitual. Han Bennink aproveita todos os objectos para fazer percussão e arranca sonoridades surpreendentes. Quase sempre em concordância, utilizando uma panóplia de instrumentos por vezes impossíveis de identificar, os dois músicos constroem fragmentos de ritmos e melodias que se sustentam em diálogo permanente. Sem alinhar em tretas neo-hippies, esta é uma celebração da música e da natureza, da música que nasce na floresta, nas árvores, na água. Pela dimensão que representa, como manifesto de música improvisada, este álbum é poesia natural.

Disco: “Basement Sessions Vol. 4” de Aalberg / Kullhammar / Zetterberg / Santos Silva

Aalberg / Kullhammar / Zetterberg / Santos Silva
“Basement Sessions Vol. 4 (The Bali Tapes)”
(Clean Feed, 2017)

As “Basement Sessions” são uma série de gravações de um grupo base constituído por três nomes fortes da cena jazz nórdica: o saxofonista Jonas Kullhammar, o contrabaixista Torbjörn Zetterberg e o baterista/percussionista Espen Aalberg . Os dois primeiros volumes, editados em 2012 e 2014, apresentavam música exclusiva do trio. Já no “Vol. 3 (The Ljubljana Tapes)”, gravado no festival de jazz de Ljubljana, a formação base contou com o acrescento do saxofonista norueguês Jørgen Mathisen.

Chegados ao quarto volume, o grupo mantém o formato quarteto, agora com o acrescento da trompetista portuguesa Susana Santos Silva. Muito ligada à cena nórdica, com parcerias com o contrabaixista Zetterberg (atenção aos discos “Almost Tomorrow” e “If Nothing Else”!), Santos Silva sente-se em casa acompanhada por um grupo de músicos que trabalham a improvisação estruturada em composições.

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3255-basement-sessions-vol-4-the-bali-tapes/

Disco: “Autres Paysages” de Camões / Cappozzo / Foussat

João Camões / Jean-Luc Cappozzo / Jean-Marc Foussat
“Autres Paysages”

(Clean Feed, 2017)

Nascido em Coimbra em 1983, João Camões estudou viola no Conservatório de Música de Coimbra e, já em Lisboa, descobriu a cena improvisada e experimental. Herdeiro musical de Carlos Zíngaro (pioneiro da improvisação em Portugal, com quem tem trabalhado), Camões explora na viola d’arco uma combinação de abordagens criativas com técnicas clássicas, sempre com fluência improvisacional. Actualmente integra os grupos Open Field, Earnear e Nuova Camerata – quinteto “all-star” com Zíngaro, Ulrich Mitzlaff, Miguel Leiria Pereira e Pedro Carneiro.

Camões teve uma recente estadia em Paris onde desenvolveu contactos com a cena improvisada local e este disco é o resultado desse trabalho. Neste novo disco a viola d’arco de João Camões tem a companhia do trompete de Jean-Luc Cappozzo e da electrónica de Jean-Marc Foussat. Se, pela própria natureza instrumental, o trio por vezes se aproxima de uma vertente camarística (característica que se assume de forma mais clara sobretudo num seu outro projecto, a Nuova Camerata), a integração da electrónica vem adicionar um carácter de originalidade e diferença. (…)

Texto completo no site:
http://bodyspace.net/discos/3253-autres-paysages/

Memória: “Ascension” de John Coltrane

Em 2006 o Gonçalo Loureiro convidou-me para escrever um texto para o seu blog “Entrelinhas“. Escrevi sobre um dos discos favoritos de sempre, o clássico (e pouco consensual) “Ascension” de John Coltrane. Aqui fica o texto.

John Coltrane
“Ascension”
(Impulse!, 1965)

Numa era que valoriza a simplificação, o jazz não será certamente a matéria mais fácil para abordagens condescendentes. Cem anos de história investem à música mais genuinamente americana um emaranhado de dados, elementos, personagens e referências que formam uma malha complexa, impossível de reduzir a meia dúzia de palavras. Não é sequer unânime, entre melómanos afincados, a escolha de um nome único que seja o sinónimo da palavra “jazz”. Haverá uma shortlist de candidatos – Louis Armstrong, Charlie Parker, Miles Davis e John Coltrane (Duke Ellington, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Charles Mingus seriam outros possíveis) – mas nenhum deles consegue aprovação universal. Apenas uma selecção alargada de discos, de vários músicos e das suas várias fases, pode dar uma orientação consistente, ainda assim meramente introdutória.

Entre todos, John Coltrane. Se é que existe um instrumento que seja sinónimo de jazz, esse instrumento é o saxofone, particularmente o saxofone tenor. E Coltrane, o seu máximo explorador, representa o jazz. Desde que surgiu, como sideman, até que se afirmou com a obra-prima do hardbop “Blue Train” (Blue Note, 1957), o seu crescimento foi permanente. E o crescimento continuou desde que marcou presença no hiper-clássico “Kind of Blue” (Columbia, 1959) até fundar o seu mítico quarteto – McCoy Tyner, Jimmy Garrison, Elvin Jones – e daí até às estrelas. Nunca parar, nunca estancar, progredir sempre. Desde que levou o saxofone aos limites da exploração harmónica até à sua aventura pela liberdade total, John William Coltrane (1926-1967), lutou até ao fim pela premissa maior do jazz: a improvisação. Continue reading “Memória: “Ascension” de John Coltrane”

Disco: “Rush” de Mário Franco

Mário Franco
“Rush”
(Nischo, 2017)

Mário Franco é um experiente contrabaixista que, já com uma longa carreira, chega aqui ao seu terceiro disco na condição de líder. No ano de 2006 editou “This Life” (TOAP), disco gravado em quinteto que contou com o convidado especialíssimo David Binney. Em 2014 editou “Our Door” (TOAP / OJM), gravado em trio com Sérgio Pelágio (guitarras) e André Sousa Machado (bateria), uma abordagem mais despida e directa. É ainda um dos vértices do quarteto Cine Qua Non (com Paula Sousa, João Paulo Esteves da Silva e Afonso Pais).

Franco integra também o trio de Esteves da Silva, que gravou o excelente “Brightbird” (um dos grandes discos nacionais do ano, que tem merecido também justificada atenção internacional). Este seu novo disco é o oposto completo: em vez da suavidade acústica e poética do JPES Trio, temos aqui uma música eletrificada; em vez da improvisação aberta, temos aqui composições bem definidas e estruturadas.

O contrabaixista lidera um grupo focado na electricidade, próximo do rock: há uma guitarra elétrica (Sérgio Pelágio); piano Fender Rhodes, orgão Hammond e outros teclados (Luís Figueiredo); piano e electrónicas (Oscar Graça); e bateria e percussão (Alexandre Frazão). O próprio Franco, além do contrabaixo, também se aplica no baixo eléctrico e samples. Todas as composições são originais, a maioria escrita exclusivamente por Franco, algumas de composição partilhada com Pelágio (três temas) e ainda um outro escrito em parceria com Pelágio e Frazão. (…)

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3251-rush/

Disco: “Amphibian Ardour” de Spinifex

Spinifex
“Amphibian Ardour”
(Trytone, 2017)

O contrabaixista Gonçalo Almeida, português radicado na Holanda, teve um grande ano de 2017. Estreou o trio The Selva (com Ricardo Jacinto e Nuno Morão, disco homónimo na Clean Feed), editou o disco “Metamorphosis” (com o trio LAMA e o convidado Joachim Badenhorst) e o disco “The Attic” (em trio com Rodrigo Amado e Marco Franco, gravado ao vivo na SMUP) tem recebido especial atenção da crítica internacional.

Outro dos seus projectos, o grupo holandês Spinifex, teve também um disco editado neste ano profícuo. Neste grupo Almeida tem a companhia dos saxofonistas Tobias Klein e John Dikeman, do guitarrista Jasper Stadhouders e do baterista Philipp Moser. Este “Amphibian Ardour” foi gravado em Lisboa (Estúdio Namouche) e conta com um convidado adicional, o trompetista belga Bart Maris – membro de bandas como Fukkeduk, Kamikaze e Flat Earth Society e que participou em vários discos dos dEUS. (…)

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3249-amphibian-ardour/

Disco: “Kill the Boy” de João Espadinha

João Espadinha
“Kill the Boy”
(Sintoma, 2017)

Natural de Lisboa, João Espadinha é um jovem guitarrista com formação académica consolidada. Passou pela Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube (estudou com guitarristas como Afonso Pais, André Fernandes e Bruno Santos) e frequentou o Conservatório de Amesterdão, onde concluiu a licenciatura em guitarra jazz. Espadinha apresenta agora o seu disco de estreia.

Nesta sua estreia discográfica na condição de líder Espadinha chefia um sexteto onde a sua guitarra eléctrica conta com a companhia de Bruno Calvo (trompete), Nicolo Ricci (saxofone tenor), João Pedro Coelho (piano), Giuseppe Romagnoli (contrabaixo) e Andreu Pitarch (bateria). O disco conta ainda com duas cantoras convidadas: Mariana Nunes, no tema “6th Floor”, e Joana Espadinha na última faixa.

O título do disco, Kill the Boy, é uma citação gamada ao livro A Feast For Crows de George R. R. Martin, um dos livros que sustenta a série Game of Thrones. Para o autor o título representa uma metáfora para “a entrada na vida adulta e remete para a transição difícil de sair da escola e de entrar no mercado de trabalho, no mundo real”. (…)

Texto completo no site Bodyspace:
http://bodyspace.net/discos/3243-kill-the-boy/