Disco: “Eudaimonia” de José Lencastre Nau Quartet


José Lencastre Nau Quartet
“Eudaimonia”
(FMR, 2018)

Irmão do baterista João Lencastre, José Lencastre é um saxofonista criativo que tem explorado diversos universos sonoros, do rock ao funk. Recentemente editou o seu novo projecto, Nau Quartet, dedicado à improvisação livre, onde conta com a companhia do irmão João na bateria e de duas figuras centrais da cena improvisada nacional: Hernâni Faustino no contrabaixo e Rodrigo Pinheiro no piano (ambos membros do RED Trio). O quarteto apresentou-se ao mundo com o disco “Fragments of Always”, que deixou boas indicações, e é agora chegado o segundo registo, “Eudimonia”. Neste novo registo Lencastre mantém as premissas do disco anterior, liderando um quarteto que apresenta uma música directa, intensa, plena de energia. Improvisação pura, acesa, que cresce com as sugestões individuais, assente num focado sentido colectivo. A nau continua a navegar segura.

Colheita 2019: Realidades paralelas

O primeiro semestre do ano foi rico em jazz e música improvisada Made In Portugal. Em 2019 foram editados diversos discos da autoria de músicos portugueses e alguns desses álbuns foram já alvo de referências e destaques: “In Search of Light” (Eduardo Cardinho), “After Silence, Vol. I” (José Dias), “Summer Bummer” (The Attic), “Histórias do Céu e da Terra” (Isabel Rato), “The Clifton Bridge Landscapes” (Krake), “III” (TGB), “No Place to Fall” (Rodrigo Amado & Chris Corsano), “Boundaries” (Manuel Linhares), “The Garden of Earthly Delights” (André Carvalho), “Vol. III” (Mano a Mano), e “Volúpias” (Gabriel Ferrandini). Além destes, vários outros merecem atenção. Desde o jazz mais ligado a correntes mainstream até à pura improvisação livre, várias foram as propostas apresentadas por músicos nacionais, realidades musicais diferenciadas e muito válidas, que podem co-existir em simultâneo. Aqui ficam alguns dos destaques da colheita nacional 2019. Continue reading “Colheita 2019: Realidades paralelas”

Disco: “Volúpias” de Gabriel Ferrandini


Gabriel Ferrandini
“Volúpias”
(Clean Feed, 2019)

É uma das grandes figuras nacionais da música improvisada do século XXI. O baterista Gabriel Ferrandini afirmou-se como músico notável ao longo da última década, membro fulcral de dois grupos de improvisação livre que têm atravessado fronteiras: RED Trio e Rodrigo Amado Motion Trio. Em paralelo tem desenvolvido trabalho a solo (apresentou no Maria Matos o espectáculo “Tudo Bumbo”), mantém um duo estável com o saxofonista Pedro Sousa (PeterGabriel) e participa em diversas formações, nacionais e internacionais.

Ferrandini tem colaborado com músicos como Evan Parker, Peter Evans, Alexander Von Schlippenbach, Axel Dörner, John Butcher ou Nate Wooley (versão resumida do CV). E acaba agora de editar o excelente disco “Disquiet”, em duo com o saxofonista russo Ilia Belorukov (edição Clean Feed). Além da improvisação, Ferrandini explora ainda projetos de rock mais livre, tocou e gravou com Thurston Moore (Sonic Youth) e Alex Zhang Hungtai (Dirty Beaches) e a formação mais recente de CAVEIRA. Continue reading “Disco: “Volúpias” de Gabriel Ferrandini”

Disco: “The Clifton Bridge Landscapes” de Krake

Krake
“The Clifton Bridge Landscapes”

(Edição de autor, 2019)

Pedro Oliveira, baterista e percussionista, é um músico de interesses diversos e horizontes vastos. É membro das bandas Dear Telephone (indie/pop alternativa sofisticada), peixe:avião (rock alternativo), Green Machine (garage rock) e OZO (experimental, ouça-se o disco A Kind of Zo), além de colaborações com o grupo de percussão Drumming, Old Jerusalem e Sensible Soccers, entre outras parcerias. Tem ainda estado ligado ao universo do jazz e é director artístico do Jazz ao Largo, ciclo que se tem realizado desde 2016 na cidade de Barcelos.  Continue reading “Disco: “The Clifton Bridge Landscapes” de Krake”

Disco: “III” de TGB

TGB
“III”
(Clean Feed, 2019)

“Jazz original que vai picar às mais diversas fontes. O trio de Sérgio Carolino, Mário Delgado e Alexandre Frazão chega ao terceiro disco com a energia de sempre.”

Texto publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público, edição de 14 de Junho de 2019.

Disco: “Emergency Exit” de Trisonte

Trisonte
“Emergency Exit”
(Escanifobético, 2018)

O trio Trisonte é um grupo atípico, cuja formação se traduz numa configuração pouco comum de guitarra, saxofone e bateria. Na guitarra está Ricardo Barriga, o saxofone é de Gonçalo Prazeres e na bateria fica Luís Candeias (que também grava baixo eléctrico). O trio teve a sua estreia discográfica em 2013, com a edição de “Monster’s Lullaby” (edição Sintoma Records), e chega agora ao segundo disco, com este novo “Emergency Exit”. O trio parte de uma base jazzística e é aí que assenta a natureza da sua música, mas não se fica por aí. Os temas baseiam-se sobretudo em riffs, curtos e fortes, típicos do rock. A música é enérgica e imediata, conquista rapidamente pela urgência. Este segundo disco reúne um total de nove temas, todos originais, de composição repartida entre Barriga e Prazeres. Continue reading “Disco: “Emergency Exit” de Trisonte”

Disco: “Selon le vent” de Pareidolia

Pareidolia
“Selon le vent”
(JACC, 2018)

“A pareidolia é um fenómeno psicológico que envolve um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou som, sendo percebido como algo distinto e com significado. É comum ver imagens que parecem ter significado em nuvens, montanhas, solos rochosos, florestas, líquidos, janelas embaçadas e outros tantos objetos e lugares. Ela também acontece com sons, sendo comum em músicas tocadas ao contrário, como se dissessem algo. A palavra pareidolia vem do grego para, que é junto de ou ao lado de, e eidolon, imagem, figura ou forma. Pareidolia é um tipo de apofenia.”

É esta a primeira explicação que surge na internet e é esse o nome do novo grupo que trabalha a improvisação livre. Este trio é formado pelo português João Camões (viola) e os franceses Gabriel Lemaire (saxofones alto e barítono e clarinete alto) e Yves Arques (piano). Camões é um jovem músico português que utiliza a viola d’arco e tem trabalhado no campo da improvisação livre, onde se destaca a sua participação nos grupos Open Field String Trio (Marcelo dos Reis e José Miguel Pereira), Earnear (com Rodrigo Pinheiro e Miguel Mira) e Nuova Camerata (com Carlos Zíngaro, Ulrich Mitzlaff, Miguel Leiria Pereira e Pedro Carneiro).  Continue reading “Disco: “Selon le vent” de Pareidolia”

Disco: “Boundaries” de Manuel Linhares

Manuel Linhares
“Boundaries”
(Edição de autor, 2019)

No universo do jazz internacional, e consequentemente também no jazz português, são inúmeras as vozes femininas, mas o número de cantores homens é diminuto. Em Portugal Kiko Pereira foi uma das honrosas excepções, antes de surgir o fenómeno Salvador Sobral. E agora Manuel Linhares vem reclamar o seu lugar, como uma nova voz masculina do jazz português.

Manuel Linhares nasceu na Horta em 1983 e vive no Porto desde muito novo. Começou os estudos musicais na Escola de Jazz do Porto, concluiu a licenciatura em Canto Jazz na ESMAE e estudou no Taller de Músics em Barcelona e no Jazz Institute of Berlin. Entre outros, Linhares estudou com Rebecca Martin, Becca Stevens e Gretchen Parlato e participou em workshops de Bobby McFerrin e Meredith Monk. Entre vários projectos e colaborações, destaca-se a sua participação no festival Angrajazz, integrando a Orquestra Angrajazz dirigida por Claus Nymark e Pedro Moreira. Continue reading “Disco: “Boundaries” de Manuel Linhares”

Disco: “In Search of Light” de Eduardo Cardinho

Eduardo Cardinho 
“In Search of Light” 
(Nischo, 2019)

É raro vermos o vibrafone a assumir o papel de líder na história do jazz. Eduardo Cardinho é uma honrosa excepção lusitana que, ainda jovem, começa a dar que falar. Natural de Leiria, estudou na ESMAE, foi aluno de Jeffery Davis (nasceu no Canadá e tornou-se referência nacional no instrumento), tem estado ligado à cena jazz portuense e em 2014 recebeu a distinção de melhor instrumentista na Festa do Jazz do São Luiz. O seu disco de estreia como líder, Black Hole, surgiu em 2016, editado pelo Carimbo Porta-Jazz. Esse álbum mostrava um excelente instrumentista e compositor com vontade de se afirmar e com ideias próprias. Desde então temos visto Cardinho a evoluir, emprestando o seu vibrafone a diversos projectos, como os excelentes Home de João Barradas e o quinteto Galip, e foi convidado da Orquestra Jazz de Matosinhos no seu ciclo “Novos Talentos”. Chega agora o seu segundo disco como líder, desta vez publicado pela editora Nischo. (…)

Texto completo no no jornal Público:
https://www.publico.pt/2019/04/26/culturaipsilon/critica/procurando-luz-1870368