Memória: Entrevista a Gunter Hampel (2009)

O multi-instrumentista Gunter Hampel (n. 1947) é uma figura histórica do jazz criativo europeu.  Editou discos marcantes como “Heartplants” (1964) ou “The 8th of July 1969” (1969) e foi lendária a sua parceria com a cantora Jeanne Lee (1939-2000) – que foi também sua companheira de vida. Em Julho de 2009 Gunter Hampel actuou no festival Jazz Im Goethe-Garten, em Lisboa. Esta conversa aconteceu depois desse concerto (23 de Julho) e foi publicada na revista Jazz.pt #37.

 

Nasceu na Alemanha em 1937. Como aconteceram os seus primeiros contactos com o jazz?

Tendo nascido no ano de 37, eu ainda vivi a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra os americanos ficaram e nessa altura conheci uns soldados americanos negros. Eu era um miúdo, tinha uns oito anos, e tocava o acordeão. Eu ia ter com eles porque eles tinham selos, pastilhas elásticas e bananas – coisas que eu nunca tinha visto antes – e uma vez levei o acordeão. Um dos soldados começou a tocar guitarra e tive aí a minha primeira jam session. Nessa altura comecei também a ouvir a música da rádio das forças americanas e um dia ouvi o Louis Armstrong. Na altura não percebi as palavras, mas entendi o significado daquela música, nunca tinha sentido nada como quando ouvi aquela música incrível, que me deixou estupefacto. Continuei a ouvir essas músicas e essa exposição à cultura jazz foi uma coisa que me marcou para o resto da vida.  Continue reading “Memória: Entrevista a Gunter Hampel (2009)”

Julho é de Jazz fecha programa

Jim Black

Já sabíamos que a saxofonista Nubya Garcia iria actuar no ciclo Julho é de Jazz em Braga, ficamos agora a conhecer a programação completa. O ciclo promovido pelo gnration completa-se com mais dois concertos: Mário Costa “Oxy Patina” e Jim Black & Elias Stemeseder “Bunky Swirl” com o convidado Peter Evans. Além dos concertos, o Julho é de Jazz apresenta ainda uma masterclass com o baterista Jim Black. Os concertos têm início às 22h00 e os bilhetes podem ser adquiridos em gnration.bol.pt, balcão gnration e locais habituais. Aqui fica o programa.

11 Jul, 22h00: Mário Costa “Oxy Patina”
12 Jul, 22h00: Nubya Garcia
13 Jul, 14h30: Masterclass Jim Black
13 Jul, 22h00: Jim Black & Elias Stemeseder “Bunky Swirl” + Peter Evans

Disco: “Emergency Exit” de Trisonte

Trisonte
“Emergency Exit”
(Escanifobético, 2018)

O trio Trisonte é um grupo atípico, cuja formação se traduz numa configuração pouco comum de guitarra, saxofone e bateria. Na guitarra está Ricardo Barriga, o saxofone é de Gonçalo Prazeres e na bateria fica Luís Candeias (que também grava baixo eléctrico). O trio teve a sua estreia discográfica em 2013, com a edição de “Monster’s Lullaby” (edição Sintoma Records), e chega agora ao segundo disco, com este novo “Emergency Exit”. O trio parte de uma base jazzística e é aí que assenta a natureza da sua música, mas não se fica por aí. Os temas baseiam-se sobretudo em riffs, curtos e fortes, típicos do rock. A música é enérgica e imediata, conquista rapidamente pela urgência. Este segundo disco reúne um total de nove temas, todos originais, de composição repartida entre Barriga e Prazeres. Continue reading “Disco: “Emergency Exit” de Trisonte”

QuebraJazz volta a animar Verão de Coimbra


[Fotografia: Márcia Lessa]

Coimbra vai acolher a oitava edição do ciclo QuebraJazz. O jazz nacional vai passar pelas históricas Escadas Quebra-Costas entre os dias 19 de Junho e 31 de Agosto. Como habitualmente, os concertos realizam-se ao fim-de-semana e este ano há também concertos em vésperas de feriados. O programa inclui nomes como Lokomotiv, trio Carlos Bica / André Santos / João Mortágua,  Kintsugi (João Mortágua e Luís Figueiredo), Demian Cabaud, Desidério Lázaro, Tomás Marques e MCAF Jazz Quartet (André Murraças, Rui Caetano, Hugo Antunes e Pedro Felgar), entre outros. Além dos concertos nas escadas, este ano o festival promove um concerto no Anfiteatro Colina de Camões na Quinta das Lágrimas, numa organização conjunta QuebraJazz e Festival das Artes: Alma Nuestra (de Salvador Sobral e Vitor Zamora) a 25 de Julho. Todos os concertos têm entrada livre e início às 22h30, com excepção do concerto de Alma Nuestra (21h00, 20€). Aqui fica o programa completo.

19 Junho: Dixie Gringos
21/22 Junho: Ricardo Formoso
28/29 Junho: MCAF Jazz Quartet
3 Julho: Lokomotiv
5/6 Julho: Kintsugi
12/13 Julho: Quinteto Demian Cabaud
19/20 Julho: Trio Paulo Bandeira
25 Julho: Alma Nuestra
26/27 Julho: André Fernandes’ Centauri
2/3 Agosto: Carlos Bica + André Santos + João Mortágua
9/10 Agosto: Quarteto Desidério Lázaro
14 Agosto: Quinteto Tomás Marques
16/17 Agosto: Daniel Neto Trio
23/24 Agosto: Quinteto André Carvalho
30/31 Agosto: Quebra Ensemble

Disco: “Selon le vent” de Pareidolia

Pareidolia
“Selon le vent”
(JACC, 2018)

“A pareidolia é um fenómeno psicológico que envolve um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou som, sendo percebido como algo distinto e com significado. É comum ver imagens que parecem ter significado em nuvens, montanhas, solos rochosos, florestas, líquidos, janelas embaçadas e outros tantos objetos e lugares. Ela também acontece com sons, sendo comum em músicas tocadas ao contrário, como se dissessem algo. A palavra pareidolia vem do grego para, que é junto de ou ao lado de, e eidolon, imagem, figura ou forma. Pareidolia é um tipo de apofenia.”

É esta a primeira explicação que surge na internet e é esse o nome do novo grupo que trabalha a improvisação livre. Este trio é formado pelo português João Camões (viola) e os franceses Gabriel Lemaire (saxofones alto e barítono e clarinete alto) e Yves Arques (piano). Camões é um jovem músico português que utiliza a viola d’arco e tem trabalhado no campo da improvisação livre, onde se destaca a sua participação nos grupos Open Field String Trio (Marcelo dos Reis e José Miguel Pereira), Earnear (com Rodrigo Pinheiro e Miguel Mira) e Nuova Camerata (com Carlos Zíngaro, Ulrich Mitzlaff, Miguel Leiria Pereira e Pedro Carneiro).  Continue reading “Disco: “Selon le vent” de Pareidolia”

Prémios RTP/Festa do Jazz: Rodrigo Amado é artista do ano

[Fotografia: Vitorino Coragem]

No dia 1 de Junho foram atribuídos os Prémios RTP / Festa do Jazz 2019, numa cerimónia que teve lugar durante a Festa do Jazz no Capitólio, e o saxofonista Rodrigo Amado foi distinguido com o prémio Artista do Ano. Activo desde a década de 1990, Amado tem desenvolvido um percurso notável explorando o jazz criativo com múltiplos projectos, como os Lisbon Improvisation Players (entre 2002 e 2004), a sua “working band” Motion Trio (desde 2008), o seu quarteto americano (com Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano), o trio The Attic e acaba de editar um disco em duo com Chris Corsano, “No Place to Fall“, entre outros. Em paralelo com a prática musical, Amado tem ainda desenvolvido um trabalho notável como fotógrafo. Este prémio vem fazer justiça a um saxofonista que se assume sem dúvidas como músico de jazz e, nem sempre reconhecido no seu país, se tem notabilizado como figura de proa da música improvisada a nível global.

Na cerimónia foram ainda atribuídos os prémios de Artista Revelação a Tomás Marques, de Grupo do Ano aos Lokomotiv e o Prémio de Mérito à Orquestra Jazz de Matosinhos.

Disco: “Boundaries” de Manuel Linhares

Manuel Linhares
“Boundaries”
(Edição de autor, 2019)

No universo do jazz internacional, e consequentemente também no jazz português, são inúmeras as vozes femininas, mas o número de cantores homens é diminuto. Em Portugal Kiko Pereira foi uma das honrosas excepções, antes de surgir o fenómeno Salvador Sobral. E agora Manuel Linhares vem reclamar o seu lugar, como uma nova voz masculina do jazz português.

Manuel Linhares nasceu na Horta em 1983 e vive no Porto desde muito novo. Começou os estudos musicais na Escola de Jazz do Porto, concluiu a licenciatura em Canto Jazz na ESMAE e estudou no Taller de Músics em Barcelona e no Jazz Institute of Berlin. Entre outros, Linhares estudou com Rebecca Martin, Becca Stevens e Gretchen Parlato e participou em workshops de Bobby McFerrin e Meredith Monk. Entre vários projectos e colaborações, destaca-se a sua participação no festival Angrajazz, integrando a Orquestra Angrajazz dirigida por Claus Nymark e Pedro Moreira. Continue reading “Disco: “Boundaries” de Manuel Linhares”

Levi Condinho: poesia encharcada de jazz

O jazz também se faz do público, os espectadores são parte integrante de cada espectáculo. Um dos rostos mais assíduos nas salas lisboetas é Levi Condinho, poeta que acaba de ver reunida a antologia “Pequeno Roteiro Cego“, organizada por António Cabrita e Miguel Martins, editada pela Abysmo. A poesia de Condinho está encharcada de jazz, um dos seus poemas é a “Ode ao Charlie Parker” e um dos seus livros tem como título “Saxofone” (editado na & etc).

«que mais poderia Deus querer /
na grande falta da sua completa solidão /
senão esta invenção pascal do jazz /
para o fim do seu imenso tédio»

Texto de António Cabrita na Revista Caliban:
https://revistacaliban.net/levi-condinho-o-seu-a-seu-tempo-4ddd2e6a54ba

Trevor Watts com Rodrigo Amado Motion Trio no Cartaxo

Trevor Watts

O Rodrigo Amado Motion Trio vai apresentar-se ao vivo com o lendário saxofonista Trevor Watts num concerto único no Cartaxo. O encontro entre o saxofonista britânico e o grupo de Rodrigo Amado, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini terá lugar no dia 13 de Julho, às 21h30, no Centro Cultural do Cartaxo. Este evento será o culminar de uma residência artística que os músicos irão realizar entre 9 e 15 de Julho. Os bilhetes têm o preço único de 5€ e este será o único concerto em Portugal.

O saxofonista Trevor Watts é um extraordinário improvisador, figura central da improvisação livre inglesa, com um currículo transversal: passou pelos seminais Spontaneous Music Ensemble e Amalgam, além de ter firmado parcerias com músicos como Barry Guy, Veryan Weston, Steve Lacy, Don Cherry, John Stevens e Keith Tippett, entre outros.

Sara Serpa lança crowdfunding para o projecto “Recognition”

A cantora Sara Serpa acaba de anunciar uma campanha de crowdfunding para a edição do seu novo projecto “Recognition”. O projecto consiste num filme mudo com imagens da era colonial portuguesa, textos de Amílcar Cabral e música original da autoria de Serpa, com a participação de Zeena Parkins (harpa), Mark Turner (saxofone tenor) e David Virelles (piano).

Mais informações:
https://www.indiegogo.com/projects/recognition-sara-serpa-s-newest-album#/